Tapa-me os olhos que eu não quero ver
por João Miguel Tavares17 Novembro 2009 - Diário de Notícias
O caso “Face Oculta” esbarra de frente com o primeiro-ministro. O País inteiro pára para ver. Vem o presidente do Supremo Tribunal e diz: “É tempo de repensar toda a estrutura de investigação criminal.” Vem o procurador–geral da República e diz: “Os políticos devem acabar com o segredo de justiça ou então mudar a lei.” Sobre o primeiro-ministro, durante uma semana, nenhum deles disse coisa alguma. Meus caros amigos: isto é o mesmo que ter um homem encarcerado num acidente e os dois médicos do INEM chamados ao local optarem por ficar na berma da estrada a discutir questões de anatomia. Isto é o mesmo que ter um avançado caído dentro da área e o árbitro e o fiscal de linha decidirem que naquele momento o que se impõe é uma reflexão sobre as regras do penálti. Isto é o mesmo que ter uma casa a arder e dois bombeiros sentarem-se a debater a qualidade do seu equipamento em vez de irem buscar a mangueira da água.
Está tudo doido? Não. Está tudo cheio de medo. Porque nunca ninguém viu nada assim desde que existe democracia e Noronha do Nascimento e Pinto Monteiro preferiam manifestamente não ter sido eles a ver. Estas são circunstâncias absolutamente excepcionais e eu não sei se temos homens à altura destas circunstâncias. Parece-me muito sintomático que os dois mais altos magistrados do País se tenham refugiado em questões políticas (o segredo de justiça e a estrutura da investigação) no preciso momento em que aquilo que se lhes exige é clareza absoluta nas decisões judiciais. Pinto Monteiro, aliás, só emitiu um comunicado com alguns esclarecimentos depois de José Sócrates ter exigido publicamente que queria ser esclarecido.
Sejamos cristalinos: acreditar que Jesus Cristo andou sobre as águas exige menos fé do que acreditar que as conversas entre Sócrates e Vara têm a inocência de um episódio da Abelha Maia. Supondo que o juiz de instrução criminal de Aveiro não enlouqueceu, o simples facto de enviar certidões para o Supremo envolvendo Sócrates tem só por si um efeito devastador e que exige uma dupla resposta: jurídica (saber se as escutas são legais) mas também política. E, para a resposta política, a legalidade das escutas interessa pouco. Sócrates disse: “A questão mais importante para mim é saber se, durante meses a fio, fui escutado e se isso é legal num Estado de direito.” Mas a questão mais importante para mim, e suponho que para a maioria dos portugueses, não é saber se as escutas são legais, mas se o primeiro-ministro teve conversas inaceitáveis com Armando Vara à luz de um Estado de direito. Isso até devia sossegar Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento. Só que eles conhecem demasiado bem a política para ainda serem capazes de confiar no poder solitário da justiça.
Uma questão de honra
16-Nov-2009
MÁRIO CRESPO - «Eu confio no Procurador que mandou investigar as conversas de Vara com quem quer que fosse. Fê-lo porque achou que nelas haveria matéria de importância nacional. E há. Confio no Juiz que autorizou as escutas quando detectou indícios de que entre os contactos de Vara havia faces até aqui ocultas com comportamentos intoleráveis. E, infelizmente o digo, confio, sobretudo, em quem com toda a dignidade democrática e grande risco pessoal, tem tomado a difícil decisão de trazer ao conhecimento público indícios de infâmias que, de outro modo, ficariam impunes. A luta que empreenderam, pela rectificação de um sistema que a corrupção e o medo incapacitaram, é muito perigosa. Desejo-lhes boa sorte. Nesta fase, travam a batalha fundamental para a sobrevivência da democracia em Portugal. Têm que continuar a lutar»
Mark Felt foi um daqueles príncipes que o sólido ensino superior norte-americano produz com saudável regularidade. Tinha uma licenciatura em Direito de Georgetown e chegou a ser uma alta patente da marinha dos Estados Unidos. Com este formidável equipamento académico desempenhou missões complexas no Pentágono e na CIA.
Durante a guerra do Vietname serviu no Conselho Nacional de Segurança de Henry Kissinger. Acabou como Director Adjunto do equivalente americano à nossa Polícia Judiciária. Durante vários anos foi Director Geral interino do FBI. Foi nesse período que Mark Felt se tornou no Garganta Funda. Muito se tem escrito sobre as motivações de um alto funcionário do aparelho judiciário americano na quebra do segredo de justiça no Watergate. Todo o curriculum de Felt impunha-lhe, instintivamente, a orientação clássica de manter reserva total sobre assuntos do Estado. Hoje é consensual que Mark Felt só pode ter denunciado a traição presidencial de Nixon por uma razão. Para ele, militar e jurista, acabar com o saque da democracia americana era uma questão de honra. Pôr fim a uma presidência corrupta e totalitária era um imperativo constitucional. Felt começou a orientar em segredo os repórteres do Washington Post quando constatou que todo o aparelho de estado americano tinha sido capturado na teia tecida pela Casa Branca de Nixon e que, com as provas a serem destruídas, os assaltos ao multipartidarismo ficariam impunes. A única saída era delegar poder na opinião pública para forçar os vários ramos executivos a cumprir as suas obrigações constitucionais.
Estamos a viver em Portugal momentos equiparáveis. Em tudo. Se os mecanismos judiciais ficarem entregues a si próprios, entre pulsões absurdamente garantisticas, infinitas possibilidades dilatórias que se acomodam nos seus meandros e as patéticas lutas de galos, os elementos de prova desaparecem ou são esquecidos. Os delitos ficam impunes e uma classe de prevaricadores calculistas perpetua-se no poder. Face a isto, há quem no sistema judicial esteja consciente destas falhas do Estado e, por uma questão de honra e dever, esteja a fazer chegar à opinião pública elementos concretos e sólidos sobre aquilo que, até aqui, só se sussurrava em surdinas cúmplices. E assim sabe-se o que dizem as escutas e o que dizem as gravações feitas com câmaras ocultas que registam pedidos de subornos colossais. Ficámos a conhecer as estratégias para amordaçar liberdades de informação com dinheiro do Estado. E sabemos tudo isto porque, felizmente, há gente de honra que o dá a conhecer.
Por isso, eu confio no Procurador que mandou investigar as conversas de Vara com quem quer que fosse. Fê-lo porque achou que nelas haveria matéria de importância nacional. E há. Confio no Juiz que autorizou as escutas quando detectou indícios de que entre os contactos de Vara havia faces até aqui ocultas com comportamentos intoleráveis. E, infelizmente o digo, confio, sobretudo, em quem com toda a dignidade democrática e grande risco pessoal, tem tomado a difícil decisão de trazer ao conhecimento público indícios de infâmias que, de outro modo, ficariam impunes. A luta que empreenderam, pela rectificação de um sistema que a corrupção e o medo incapacitaram, é muito perigosa. Desejo-lhes boa sorte. Nesta fase, travam a batalha fundamental para a sobrevivência da democracia em Portugal. Têm que continuar a lutar. Até que a oposição cumpra o seu dever e faça cair este governo.
MÁRIO CRESPO | JORNAL DE NOTÍCIAS | 16.11.2009
15 Nov
Posted by: José Carlos Pacheco Alves in: Humor
Não se trata de mais uma crónica de Vítor Rabaça, aquele oficial do registo que aqui no REGINOT tem deixado alguns dos seus desabafos. Trata-se agora de uma original mensagem enviada para os serviços externos em 5 de Novembro pelo cônjuge de uma das oficiais que labora nos nossos serviços. Poderia, eventualmente,ser a crónica ou desabafo da esposa do nosso querido Vítor Rabaça.Por evidente retracção feminina tem aquela deixado o seu contido queixume dentro das quatro paredes familiares.
Por falta de tempo reencaminhamos a referida crónica para o nosso e-mail pessoal, para que,em tempo oportuno, e em casa, pudéssemos reflectir sobre o contudo da referida mensagem. Sorrimos … …sorrimos mesmo…gesto que ultimamente temos perdido fruto das trapalhadas em que o registo “encalhou”.Pela sua originalidade e pela autenticidade que revela resolvemos contactar o seu autor, consentindo que aqui no REGINOT lhe fosse dado o relevo que merece.
Setúbal, 15 de Novembro
J.C. Pacheco Alves
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—– Original Message —–
From: Rodrigo Rodrigues
To: serv_externos@dgrn.mj.pt
Sent: Thursday, November 05, 2009 6:40 PM
Subject: Será que minha mulher tem um amante ou está mesmo a trabalhar na Conservatória?
Olá boa tarde!
São 18 h e 20 m, estou em casa com os miúdos.
Minha mulher é funcionária de uma conservatória, saiu de casa pelas 7h da manhã e ainda não entrou em casa.
Fá-lo-á por volta das 20 h.
Desde que começou o famigerado SIDAP que nossa vida está assim. Ela não tem tempo para mim, para os miúdos para a casa.
Tornou-se um “robôt” … só fala nos objectivos do serviço, nos sistemas informáticos que não funcionam, enfim tem perdido todo o interesse com que a conheci há uns anos largos…
Nem nas férias a sua cabeça descansa, penso que não anda bem… não é possível! …
Já pensei que teria talvez um amante, mas depois de discretamente a investigar, cheguei à conclusão de que está mesmo a trabalhar… amantes no serviço é impossível, pois a repartição é só de mulheres! …
E estamos a 30 minutos a pé da conservatória.
Mas que Instituto é esse que exige assim das pessoas?
Não existem greves, sindicatos que ponham cobro a isto? Será que pensam que os funcionários são escravos??
Que Estado é este que pões os seus colaboradores assim?
Ainda há tempos houve uma greve e minha mulher, apesar de concordar com o fim da mesma, disse-me que tinha que ir trabalhar, pois senão atrasaria o serviço.
Continuo só com os miúdos…
Depois deste desabafo, um alerta a todos os que trabalham nos registos:
Existe vida para além das conservatórias!
As pessoas não são coisas, não se pode exigir assim delas! …
Rodrigo
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Caro Rodrigo:
Reencaminhei a sua mensagem para o meu email pessoal. Como no serviço o tempo escasseia até para sorrir… aqui pelo menos em casa posso rir às gargalhadas. Mas a sua mensagem é tão autêntica que nem sei se deveríamos chorar! Sou conservador do registo predial (…). E sabe a minha mulher também desconfia de mim… pode crer que é verdade. Mas sabe? Já tenho uns bons anos de serviço (28 anos) mas a nossa vida sempre foi um pouco assim. Falo com muitos esposos e esposas de conservadores e oficiais do registo e toda (?) a gente se queixa. Gostaria de publicitar o seu e-mail na minha página pela realidade que encerra. Posso fazê-lo?
(…)
p. alves
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Claro que pode publicar tudo o que desejar.
Afinal foi um desabafo de um marido que se sente só, traído pela mulher que ama e que parece que só gosta de trabalhar.
Sou funcionário do privado, sabe que é difícil, mas como nos registos nunca vi.
É a dedicação exclusiva, em detrimento da família.
E agora os conservadores parece que tb. já são notários, enfim, uma grande confusão
Um bom dia pró sr. dr. e um bom fds
Rodrigo
Tem-se a ideia de que a teia curruptora que perpassa o país tem a ver com a crise da justiça. Em abono da verdade teremos de dizer que somos todos culpados. O povo português é o principal culpado, porque, cobardemente, e basta ouvir as conversas que se retêm nos meios de transporte, nos cafés, apenas adopta atitude de mera varinice, quando a ideia de cidadania nos exige a todos uma atitude séria e de responsabilidade. E o problema é que vivemos num país de chicos espertos, em que são muitos os que vivem da artimanha, da trepassa e habilidade e são estes que, intimidando os outros, marcam e têm traçado o rumo do país. Assim, não há justiça que nos valha! … Podem continuar a mudar as leis, penais ou do processo, ou mesmo, como há tempos aconteceu, a lei que aplidaram “das armas”, e todos nós sabemos como se processam estas alterações, casuisticamente, ao sabor e saber egoista da partidarite, pois, se não soubermos estar à altura das exigências da democracia, continuaremos a arranjar bodes espiatórios, fastasmas reveladores da nossa incapacidade como povo e nação. Temos a ideia que falta aqui cidadania, educação, cultura, exigência e rigor na acção de todos nós.
Setúbal, 12 de Novembro
J.C.Pacheco Alves
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Opinião - Mário Crespo - Jornal de Notícias
A cabeça do polvo
2009-11-09
O sistema judicial português enfrenta o imenso desafio de não deixar que o Face Oculta se torne numa segunda Casa Pia. Até aqui o processo tem tido um avanço modelar. Não houve interferências políticas. Lopes da Mota não veio de Bruxelas discutir com os seus pares metodologias de arquivamento e, no que foi uma excelente janela de oportunidade de afirmação de independência, não havia sequer Ministro da Justiça na altura em que o País soube da enormidade do que se estava a passar no mundo da sucata. Mas, há ainda um perturbante sinal de identidade com a Casa Pia. É que o único detido, até aqui, é o equivalente ao Bibi e Manuel Godinho, o sucateiro, no mundo da alta finança política não pode ser muito mais do que Carlos Silvino foi no mundo da pedofilia. Ambos serviram amos exigentes, impiedosos e conhecedores que tentaram, e tentam, manter a face oculta. É preciso ter em mente que as empresas públicas são organizações complexas. Foram concebidas para ser complicadas. Com os tempos foram-se tornando cada vez mais sinuosas. Nas EPs, as tecnoestruturas, que Kenneth Galbraith identificou e descreveu como o cancro das grandes organizações, ocupam tudo e têm-se multiplicado, imunes a qualquer conceito de racionalidade democrática, num universo onde não conta o bom senso ou a lógica de produtividade. Parecem ter um único fim: servirem-se a si próprias. Realmente já não são fiscalizáveis. Nas zonas onde era possível algum controlo foram-se inventando compartimentos labirínticos para o neutralizar, com centros de custos onde se lançam verbas no pretexto teórico de elaborar contabilidades analíticas, mas cujo efeito prático é tornar impenetráveis os circuitos por onde se esvai o dinheiro público. Há sempre mais um campo a preencher em formulários reinventados constantemente onde as rubricas de gente que de facto é inimputável são necessárias para manter os monstros a funcionar. Sem controlo eficaz, nas empresas públicas é possível roubar tudo. Uma resma de papel A4, uma caneta BIC, um milhão de Euros, uma auto-estrada ou uma ponte. Tudo isto já foi feito. Por isso mais de metade do produto do trabalho dos portugueses está a fugir por esse mundo soturno que muito poucos dominam. Por causa disso, grande parte do património nacional é já propriedade dos conglomerados político-financeiros que hoje controlam o País. Por tudo isto é inconcebível que Manuel Godinho tenha sido o cérebro do polvo que durante anos esteve infiltrado nas maiores empresas do Estado. Ele nunca teria conhecimentos técnicos para o conseguir ser. Houve quem o mandasse fazer o que fez. Godinho saberá subornar com de sacos de cimento um Guarda-republicano corrupto ou disfarçar com lixo fedorento resíduos ferrosos roubados (pags 8241 e 8244 do despacho judicial). Saberá roubar fio de cobre e carris de caminho de ferro. Mas Godinho não é mais do que um executor empenhado e bem pago de uma quadrilha de altos executivos, conhecedores do sistema e das suas vulnerabilidades, que mandou nele. É preciso ir aos responsáveis pelas empresas públicas e aos ministérios que as tutelam. Nas finanças públicas, Manuel Godinho não é mais do que um Carlos Silvino da sucata. Se se deixar instalar a ideia de que ele é o centro de toda a culpa e que morto este bicho está morta esta peçonha, as faces continuarão ocultas. E a verdade também.
Admirável mundo novo
10-Nov-2009
MANUEL ANTÓNIO PINA - «Tenho uma vida previsível e q.b. desinteressante e marimbo-me que o Governo saiba por onde ando e o que faço. Mas estou como o almirante Pinheiro de Azevedo em 1975: “Não gosto de ser sequestrado. É uma coisa que me chateia, pá.».
PSD, BE e PCP apresentaram na AR projectos de lei para revogar os diplomas que impõem a instalação de “chips” nos automóveis a partir de Janeiro de 2010.
A justificação dos “chips” seria permitir às concessionárias de “scuts” como a A28, a A29 ou a A42 cobrarem portagens sem terem despesas com a construção de praças e a contratação de pessoal. A ideia é, pois, boa, porque o que é bom para aumentar os lucros das grandes empresas é, como diz o pitoresco sr. Van Zeller, bom para o país. No caso com uma vantagem: assim o Governo e mais quem tiver acesso aos dados poderão saber a todo o momento por onde andam os cidadãos, a acrescentar ao que já sabem deles e da sua vida privada através de toda a parafernália electrónica por aí instalada e a instalar.
Tenho uma vida previsível e q.b. desinteressante e marimbo-me que o Governo saiba por onde ando e o que faço. Mas estou como o almirante Pinheiro de Azevedo em 1975: “Não gosto de ser sequestrado. É uma coisa que me chateia, pá.” Eu - e julgo que seja o caso da generalidade dos cidadãos - não gosto de sentir-me vigiado. É uma coisa que me chateia, pá.
MANUEL ANTÓNIO PINA | JORNAL DE NOTÍCIAS | 10.11.2009
2009-11-04
JOSÉ SILVA PENEDA, GESTOR
Naquele tempo Jesus andava muito feliz. Os seus discípulos tinham-no habituado a muitas e fartas alegrias. Notava-se no seu olhar um brilho muito intenso. Ele era a Luz. Ele espalhava a Luz.
E a Luz que irradiava ainda brilhou mais intensamente quando Jesus soube que os representantes da sua cidade natal ofereceram um pastel de Belém ao Dragão, que aceitou, mas que lhe caiu mal.
Jesus e os seus discípulos durante semanas seguidas andaram a esbanjar Luz por todo o lado e em todos os sentidos. Os milhões dos seus seguidores quase enlouqueciam, tão cheia estava sempre aquela Luz. O entusiasmo era muito grande porque havia muito tempo que não viam uma Luz tão alegre. E faziam-se projectos para que a Luz fosse mais e mais intensa e brilhante. Até Jesus ia na onda e fazia sinais com as mãos e dedos, em plena cerimónia litúrgica, indicando aos outros o grau de intensidade que aquela Luz tinha atingido. Os historiadores diziam que num outro século tinha havido uma Luz assim ou, porventura, ainda mais forte. E acrescentavam que tinha sido uma pantera negra, que tinha vindo de muito longe, a grande responsável por uma tão majestosa iluminação que, naquele tempo, chegou a conquistar a Europa. O que é certo é que agora ninguém queria saber para nada do valor do investimento que tinha sido feito para repor a felicidade dos milhões que adoravam ter uma Luz assim. A Luz cegava. O objectivo era claro, aquela Luz não aceitaria mais humilhações. Tinha de eliminar o poderoso Dragão, custasse o que custasse.
O Dragão, honrado e incansável trabalhador, vivia muito feliz numa cidade de província e também tinha conseguido produzir uma chama, embora de fabrico artesanal, sem grandes apoios, na base de um trabalho muito esforçado. Essa chama era muito diferente da outra. Tinha características únicas. Era mais recatada. Só se exibia a propósito. Caldeada no foro mais íntimo do Dragão na base do sacrifício, da vontade, da inteligência, da convicção, da organização, da autenticidade e da verdade era uma chama que tinha uma marca própria e muito mais barata do que a outra, até porque os meios da cidade da província eram apenas o resultado do trabalho esforçado dos que lá viviam e nas terras circunvizinhas e não parte dos proveitos de uma cidade que se habituou a viver uma vida própria de uma capital de império que já fora, habituada a gozar à fartazana, à custa do resto do território e do tráfico de influências junto de um poder político todo localizado na capital.
A chama do Dragão, rude à primeira vista, até porque não podia esconder o tom atlântico e granítico da sua origem, sabia exibir a sua fidalguia, e fê-lo, e de que maneira, em diversos mercados europeus, onde, por mais de uma vez, bateu outros concorrentes que tinham um poder económico incomparavelmente mais forte.
A chama oriunda da capital do império acaba recentemente de sofrer um enorme apagão numa outra cidade da província, mas continua a sonhar colocar o Dragão no lugar adequado aos pacóvios da província. Estão enganados. Um dia irão perceber que o dinheiro e os favores de uma capital do império não compram tudo. Um dia irão perceber que a capital do império está num processo de decadência sem retorno. Um dia irão perceber as consequências das instituições da capital do império terem perdendo prestígio cada dia que passa. Um dia acordarão com os credores a bater à porta. Um dia o apagão também acontecerá na capital do império. E será nesse dia que o Dragão, sem que se saiba ou se sinta, iluminará a capital, e também… a Luz
Jornal de Notícias de 4.11.2009
O processo Face Oculta deu-me, finalmente, resposta à pergunta que fiz ao ministro da Presidência Pedro Silva Pereira - se no sector do Estado que lhe estava confiado havia ambiente para trocas de favores por dinheiro. Pedro Silva Pereira respondeu-me na altura que a minha pergunta era insultuosa.
Agora, o despacho judicial que descreve a rede de corrupção que abrange o mundo da sucata, executivos da alta finança e agentes do Estado, responde-me ao que Silva Pereira fugiu: Que sim. Havia esse ambiente. E diz mais. Diz que continua a haver. A brilhante investigação do Ministério Público e da Polícia Judiciária de Aveiro revela um universo de roubalheira demasiado gritante para ser encoberto por segredos de justiça.
O país tem de saber de tudo porque por cada sucateiro que dá um Mercedes topo de gama a um agente do Estado há 50 famílias desempregadas. É dinheiro público que paga concursos viciados, subornos e sinecuras. Com a lentidão da Justiça e a panóplia de artifícios dilatórios à disposição dos advogados, os silêncios dão aos criminosos tempo. Tempo para que os delitos caiam no esquecimento e a prática de crimes na habituação. Foi para isso que o primeiro-ministro contribuiu quando, questionado sobre a Face Oculta, respondeu: “O Senhor jornalista devia saber que eu não comento processos judiciais em curso (…)”. O “Senhor jornalista” provavelmente já sabia, mas se calhar julgava que Sócrates tinha mudado neste mandato. Armando Vara é seu camarada de partido, seu amigo, foi seu colega de governo e seu companheiro de carteira nessa escola de saber que era a Universidade Independente. Licenciaram-se os dois nas ciências lá disponíveis quase na mesma altura. Mas sobretudo, Vara geria (de facto ainda gere) milhões em dinheiros públicos. Por esses, Sócrates tem de responder. Tal como tem de responder pelos valores do património nacional que lhe foram e ainda estão confiados e que à força de milhões de libras esterlinas podem ter sido lesados no Freeport.
Face ao que (felizmente) já se sabe sobre as redes de corrupção em Portugal, um chefe de Governo não se pode refugiar no “no comment” a que a Justiça supostamente o obriga, porque a Justiça não o obriga a nada disso. Pelo contrário. Exige-lhe que fale. Que diga que estas práticas não podem ser toleradas e que dê conta do que está a fazer para lhes pôr um fim. Declarações idênticas de não-comentário têm sido produzidas pelo presidente Cavaco Silva sobre o Freeport, sobre Lopes da Mota, sobre o BPN, sobre a SLN, sobre Dias Loureiro, sobre Oliveira Costa e tudo o mais que tem lançado dúvidas sobre a lisura da nossa vida pública. Estes silêncios que variam entre o ameaçador, o irónico e o cínico, estão a dar ao país uma mensagem clara: os agentes do Estado protegem-se uns aos outros com silêncios cúmplices sempre que um deles é apanhado com as calças na mão (ou sem elas) violando crianças da Casa Pia, roubando carris para vender na sucata, viabilizando centros comerciais em cima de reservas naturais, comprando habilitações para preencher os vazios humanísticos que a aculturação deixou em aberto ou aceitando acções não cotadas de uma qualquer obscuridade empresarial que rendem 147,5% ao ano. Lida cá fora a mensagem traduz-se na simplicidade brutal do mais interiorizado conceito em Portugal: nos grandes ninguém toca.
Poder ler também em
http://jn.sapo.pt/Opiniao/default.aspx?opiniao=M%E1rio Crespo
31 Oct
Posted by: José Carlos Pacheco Alves in: Informativo
Abaixo transcrevemos o mail do STRN do Norte . E se triste já estavamos tristes continuamos, por nos termos limitado aqui no REGINOT a transcrever dois mails, um deles sob a capa do anonimato. E o nosso comentário é claro quando afirmamos “Não sei se … não sabemos se a informação é verdadeira relativamente aos dirigentes que refere, mas há muito que se sabe que há associações de cariz sindical que funcionam como autênticas empresas proporcionando fabulosos lucros aos formadores, muitos deles oficiais do registo e, provavelmente, alguns mesmo conservadores”. Mais claros do que afirmamos não podemos ser . Não fomos nós que afirmamos o que foi enviado para todos os serviços externos. Alías, tivemos o discernimento de esclarecer que não sabiamos se a notícia, anónima, era verdadeira, sabendo de antemão que por aí anda muita “guerra” . O que afirmamos com clareza é “que há associações de cariz sindical que funcionam como autênticas empresas proporcionando fabulosos lucros …” Para bom entendedor basta.
Face à polémica criada estamos, assim, disponíveis para aqui no REGINOT o STRN Norte contraditar a notícia sabendo nós que sob a capa do anonimato se pode denegrir a imagem das pessoas ou das instituições.
p. alves
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Exmo Senhor Dr José Carlos Pacheco Alves,
Não pudemos deixar de notar o post colocado por V. Excia no Blog REGINOT, em data de 29 de Outubro, sob o título “Perdeu-se a vergonha e a decência”.
Na verdade, não apenas o texto do V/ post como o e-mail endereçado aos serviços externos do IRN e que aí é integralmente transcrito, produzem e/ou reproduzem afirmações injuriosas e difamatórias, gravemente lesivas da honra e bom-nome dos membros dirigentes do Conselho Directivo Regional do Norte do STRN.
Pelo exposto, concedemos a V. Excia um prazo máximo de 24 horas para, no mesmo suporte (Blog) em que tais afirmações foram produzidas, se retratar publicamente e, bem assim, no mesmo prazo, retirar o referido post do Blog, sob pena de nos vermos forçados a fazer a competente participação criminal contra V. Excia, com todas as consequências que, certamente, pretenderá evitar.
Sem outro assunto de momento,
Cumprimentos,
O CDRN do STRN
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Sindicato dos Trabalhadores dos Registos e do Notariado
Rua Ateneu Comercial do Porto, 22-1º Traseiras – Tel. 222081759 – Fax. 222084133
4000-380 Porto








Transcrevemos aqui dois e-mails enviados recentemente para os serviços externos. Sinceramente ficamos muito tristes com qualquer das duas mensagens. A primeira é do Presidente da Assembleia Geral da ASCR inteirando os associados da não existência de qualquer lista candidata aos órgãos sociais dias referida associação e segunda, debaixo da capa do anonimato, denuncia a “prostituição” de alguns elementos do STRN do Norte. Sinceramente, com qualquer delas não sabemos se rir ou chorar! …Mas invade-nos enorme tristeza ao ver definhar a associação dos conservadores e perplexos ficamos por não encontramos por parte destes profissionais disposição ou motivação para em conjunto pensar e reflectir sobre as verdadeiras causas desta decadência, encontrando assim uma alternativa para a ASCR. Quanto à segunda já aqui no REGINOT e por várias vezes fizemos a denúncia da promiscuidade que por aí anda relativamente aos actos formativos por parte de associações sindicais cujos estatutos se pautam pela defesa dos seus associados. Não sei se … não sabemos se a informação é verdadeira relativamente aos dirigentes que refere, mas há muito que se sabe que há associações de cariz sindical que funcionam como autênticas empresas proporcionando fabulosos lucros aos formadores, muitos deles oficiais do registo e, provavelmente, alguns mesmo conservadores. Perdeu-se a vergonha e a decência. Nos dias que correm parece que tudo vale … tudo se compra e nada se perdoa aos que, em nome de princípios porque se norteiam e da ética têm denunciado toda esta promiscuidade. E mais incomodados ficamos, quando, muitos desses formadores, não têm formação nem qualidade para participarem como agentes no processo formativo quer de oficiais e muito menos dos conservadores.
Haja coragem! … Por vezes não fica mal dar uns murros em cima da mesa e dizer mesmo uns palavrões …
Setúbal, 29 de Outubro de 2009-10-29
J.C. Pacheco Alves
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Original Message —–
From: ASCR-Direcção
To: ASCR-Direcção
Sent: Tuesday, October 27, 2009 4:08 PM
Subject: Informação
ASSOCIAÇÃO SINDICAL DOS CONSERVADORES DOS REGISTOS
27-Outubro-2009
Informação
Informo todos os Associados de que, até ao limite do prazo, não foi recebida nenhuma lista candidata às eleições para os órgãos sociais da nossa Associação Sindical, marcadas para 24 de Outubro.
Há informação de contactos em curso para apresentação de uma lista.
Como é do conhecimento geral, os actuais elementos dos órgãos sociais, cumprida a sua missão, não querem ou não podem concorrer a novo mandato.
Apelo a todos o maior empenho na resolução deste impasse que só descredibiliza a nossa Associação Sindical.
Apelo, também, à participação dos mais novos.
Em breve marcarei uma Assembleia Geral.
O Presidente da Mesa da Assembleia Geral
Manuel Duarte Santos
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ASSOCIAÇÃO SINDICAL DOS CONSERVADORES DOS REGISTOS
Alameda das linhas de Torres, 253 u1750-145 LISBOA u Tel/Fax: 217573381
Original Message —–
From: porto-gruposocios-strn@clix.pt
Sent: Tuesday, October 27, 2009 7:05 PM
Subject: Pasmaceira
Colegas
Continua a pasmaceira no STRN e agora também no STRN Norte, desde o princípio do ano que o STRN Norte não tem nenhum dirigente a tempo inteiro no sindicato. Ligamos para lá e ninguém sabe responder a nada.
Os dirigentes revoltosos (Rui de Viseu, Jorge da Figueira da Foz e Agnes de Esposende) dedicam-se unicamente à formação, é só dinheiro a entrar, malada atrás de malada e os restantes colegas formadores continuam a vêr os navios e as malas passarem.
O que se está a passar no STRN Norte é uma vergonha, nem sequer marcaram eleições como os colegas do STRN Sul e Ilhas. Enquanto estiver a formação a dar nota, vão-se manter de pedra e cal.
Irradiaram uns quantos chamaram outros tantos (estes tapadinhos, coitadinhos), mas vão ser responsabilizados uma vez que à frente da formação esteve ou ainda está também um tal Albano da Feira. Os formadores deverão pedir urgentemente uma auditoria ao POPH para se saber o que se está a passar, ou seja, uns a receberem e os outros não, mas eles têm os cofres cheios! É só dinheiro a entrar!
Pensam que saem impunes mas estão enganados, muita coisa vai vir cá para fora, muita coisa !
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Saramago
OntemO debate tinha chegado ao fim. Dois sábios tinham arguido os seus pontos de vista tão opostos como o fogo e a água. “a Pilar como se dissesse água”. Tinham brandido naipes de conceitos que buscam há décadas em abismos de milénios profundos. E jogaram-nos em palavras de infinita precisão. Mais de 70 anos de um lado. Mais de 80 do outro: - Não tenho 87. Tenho 86. Diz um grito de rispidez de quem sabe que doze meses de vida são 365 milhões de eternidades. Ou 366. “a Pilar, que não deixou que eu morresse”. “Também eu estive muito doente, de resto só esta semana é que voltei a dar aulas” disse o outro. Falaram de Deus e de deus com a eloquência dos conhecedores que já tinham pressentido os fins de tudo e tinham regressado mais um bocadinho. ” a Pilar, os dias todos”. Falaram da Palavra que ficou repetida em mil livros e mil línguas. “a Pilar, que ainda não havia nascido, e tanto tardou a chegar”. Falaram da palavra que ficou e da que foi perdida. Da palavra do senhor que não se ouviu e da do Senhor que foi inventada. Falaram do princípio dos tempos que os dois procuram como nómadas por desertos ouvindo os murmúrios divinos que ambos julgam escutar. Um, os silêncios. O outro, os cânticos. Discutiram tudo isto com um reluzente brilhantismo apaixonado. Falaram sempre com uma afagante cordialidade que contagiou. Que enterneceu. Que foi solene. Que foi importante. Um apelo no fim. “Que a Declaração Universal dos Direitos do Homem inclua o direito à dissidência. E o direito à Heresia. “Oh homem, você não pode ser herege, não precisa disso se não acredita. Eu sim. Se escrevesse isso seria herege”. Disse, defendendo as imagens e interpretações que vão adaptando o bem e o mal divino à vontade humana. “Mas quem é que vos deu o direito para alterar…para interpretar a Bíblia”. E acabou. Infelizmente. Carreira das Neves o Catedrático franciscano foi o primeiro a levantar-se e a chegar-se a Saramago (ainda sentado) e num longo afago mascarado de aperto de mão prometeu uma ida a Lanzerote. “Qualquer dia”. “Isso enchia-me de felicidade” Disse Saramago abrindo mais um sorriso delimitando infinitos pactos de entendimento numa arca de alianças eternas dos homens de boa vontade. Eu fiquei aos 62 anos subitamente cheio de vontade de chorar e de gratidão. Porque vivo no país de Saramago que tem como pátria a minha língua. Porque viajo com ele em jangadas de pedra que cruzam atlânticos e em passarolas que passam por cima da profunda maldade dos banais. Porque saltito pelas cortes de reis passados e impérios futuros montado no elefante mágico que ele nos deu para impressionarmos o universo. Porque sou também da pátria dele e sei que ele há-de viver por muitos anos nas ruas da minha cidade e ocasionalmente eu posso cruzar-me com ele, como a Joana Latino, minha colega, disse que gostava de fazer quando o entrevistou em Lanzerote. Porque ele vai continuar a ajudar-me a entender mais mundos que ainda não foram descobertos e que ele já conhece, porque viveu sempre na terra de amanhã onde eu nunca entrei. E que mos vai dando um a um. E eu fico mais rico. Porque ele vai continuar a começar os seus livros com dedicatórias encantadas com os hinos à vida de infinita beleza que só ele sabe compor. “a Pilar, a minha casa”. Porque “sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo” como disse Ricardo Reis no ano da sua morte. Porque só há um país no mundo inteiro que tem um José Saramago e é o meu país. E o dele. Graças a Deus. Jornal de Notícias http://jn.sapo.pt/Opiniao/default.aspx?opiniao=M%E1rio Crespo |