2006/12/08

«A AMARGA DESVENTURA»

                     

         Não somos uma voz no deserto. Estamos seguros que somos muitos e cada vez em maior número, os sintónicos, contra a persistência dos tiques mais arcaizantes e avessos à razão na sociedade portuguesa. E mais seguros de nós continuamos, quando vemos gente, sem mácula, apreensiva, face à incompetência e à carência de convicções, que vai proliferando neste nosso Portugal. Batista Bastos, homem impoluto, jornalista de craveira, tem autoridade, sem dúvida, para dizer o que afirma em artigo de análise - “ A AMARGA DESVENTURA”-  publicado no Jornal do Fundão de 7 de Dezembro, e do qual fazemos aqui uma breve síntese.
       
 

              «A apreensão em que vivemos, resulta de não se adivinhar nenhuma alternativa no sombrio horizonte da política portuguesa. Criámos personagens gloriosamente incompetentes, quando não com acentuada carência de convicções. A rede de interesses e de cumplicidades familiares com que se tece a nossa sociedade chega a assustar. A mentira tornou-se um hábito institucional. O mentiroso e o mentido estabeleceram laços curiosamente afectivos. “ As coisas são como são” ouvimos dizer. Um sinal repulsivo de capitulação moral. Poucas vezes, na História, nos cumprimos como cidadãos, e tomámos nas mãos os nossos destinos. Ficámos logo fatigados de exaustão. Perdemos as grandes revoltas e deixamos as revoluções a meio. Desde 1383 que assim tem sido. A última, foi num longínquo Abril de 1974. (…).

               Periodicamente, lá nos alvoroçamos um pouco mais, alimentando a ideia louca de que a esperança regressou. E votamos, numa confrontação sentimental e compadecida, aproveitando a circunstância para lhe dar sentido. Depois, verificamos que fomos novamente traídos. Mentem-nos com a leviana agitação de quem sabe ficar impune. Há assuntos de Estado sobre os quais estes mentirosos relapsos deveriam ser acusados de indignidade nacional. A nossa vida transformou-se num tormento sem tréguas. Com este governo o País vai de mal a pior. Porém, no congresso do PS, buliçosos socialistas votaram em massa no mago, cujas sinuosas divagações levam as pessoas mais lúcidas a acreditar que a imoralidade se tornou endemia.

               Torna-se difícil, ao vulgar observador, comentar o que, na realidade não existe: a ideologia, a doutrina, a tese, a reflexão. Sócrates e os seus não possuem uma ideia, uma sequer, para a solução da crise medonha que nos assaltou. Agem como o “gestor” que arribou à empresa e, para a “tornar exequível” (imunda expressão), a primeira acção que toma é a de despedir empregados. (…)

               O historial de mentiras, de omissões e de incumprimento de palavra do Governo leva-nos a concluir que esta gente não tem princípios nem honra. Dizem num dia o que no outro desdizem. Não compreendem nada do que se passa em seu redor. Não extraem conclusões dos inquietantes sinais que por aí se multiplicam. Embalam nas sondagens e a contestação, os protestos inconformados do mundo do trabalho aumentam e sobem de tom. Ferem a Constituição e não há quem os advirta com solene firmeza. Apenas o prof. Gomes Canotilho, grande figura de português, tem soltado avisos à navegação distraída. Em vão. (…)

                (…) Milhões e milhões e milhões de euros foram gastos ao desbarato. Nenhum primeiro-ministro foi acusado de incompetência nas funções e de negligência dolosa com os dinheiros públicos. E todos eles, de uma forma ou de outra, cometeram acções passíveis de indiciação criminosa.

                Nada acontece. E nada acontece por acaso. Se repararmos nos empregos e lugares de recompensa choruda que passam a preencher e a receber, logo após terem abandonado cargos públicos, então talvez percebamos a intricada teia de conveniências que foi montada, para benefício de alguns.

               O povo nunca ordenou coisíssima nenhuma, mesmo nas épocas em que se julgava ser ele o motor do seu próprio destino.»

 

                   Batista Bastos

                 “Jornal do Fundão” de 7 de Dezembro

                      

                        Para ler em detalhe clique aqui 

 

Escrito por J.C.Pacheco Alves em 18:39:52 | Link permanente | Comments (1) |
Comentário
1 - Tem razão o "velho" BB, com a autoridade que lhe advém da coragem e frontalidade com que sempre escreveu, mesmo nos tempos difíceis da ditadura. Pena é que hoje haja cada vez menos jornalistas desta estirpe, abundando os "papagaios" que se vendem a troco de um qualquer poleiro ou os que, covardemente, se agacham perante os donos dos media, sejam estes o governo (o actual ou qualquer um dos anteriores, todos eles do "centrão") ou os grandes grupos económico-financeiros, temendo o despedimento ou a colocação na "prateleira". (Comentar)

Escrito por: Cícero em 2006/12/10 - 14:45:53
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