2007/01/13

«TER ESPERANÇA É ACREDITAR QUE UM DIA A MERDA CHEIRE BEM»

NB:       Face ao momento que o país e os portugueses vivem, difícil será a um qualquer português deixar de ser céptico. Infelizmente a descrença é hoje um sentimento colectivo. Pelo realismo que encerra será importante reflectir sobre  o artigo de Rui Pelejão Marques, publicado no Jornal do Fundão com o título “Fossanguice e esperança”.          

          

           «Esperança em melhores tempos é o apelo que Cavaco Silva fez até ao bocejo do pagode no seu primeiro discurso de ano novo como Presidente da República. Ora em relação à esperança, nada como revisitar as palavras do escritor francês Céline, um avinagrado pessimista (estilo Vasco Pulido Valente). Derramava ele: “ Ter esperança é acreditar que um dia a merda cheire bem“.        

           Apelar à esperança é por isso convocar uma impossibilidade escatológica, sobretudo num país como o nosso, que é um bocado como aqueles futebolistas das camadas juniores que nunca singram nas equipas principais – somos, como país, uma eterna esperança, uma espécie de país-Litos (o tal quer era melhor que o Futre e acabou a treinar e mal o Estoril). 

           Conviria aliás recordar o nosso proeminente presidente que a última vez que o país teve razões para ter esperança, foi quando ele próprio tomou conta dos destinos da carroça e esporeou o jumento atrás da cenoura europeia. Foi-se a cenoura e ficámos na mesma carroceiros e burros de carga, alimentados a varapau e a renovadas esperanças, que é o pão dos idiotas.  

          Isso é águas passadas, mas é sempre bom espevitar a memória, contra os políticos-borracha-de-apagar. Esperança e mudança são duas palavras tão carregadas de vazio como um discurso presidencial, que as laminárias amortalhadas nos jornais e têbês, tratam de analisar, descodificar e escalpelizar, como se um discurso de ano novo do Presidente da República tivesse um prazo de validade maior do que um iogurte do Lidl ou um episódio de “Morangos com Açúcar”. É apenas um formalismo vácuo, e quem ocupa a vida a analisar o vazio só pode ser nihilista ou tão intruja como um prestidigitador de feira.    

          O discurso da esperança apenas pode surtir naquelas que têm motivos para aspirar a um BMW novo, umas férias na Polinésia, uma casa rústica na Serra da Estrela ou um “aumentozinho” como deve ser. Esses podem ter esperança. Quanto aos outros, os que vivem no limiar da pobreza, que contam os tostões para comer e vestir os filhos, os que têm reformas que se consomem em medicamentos; para esses um apelo à esperança só deve dar para encher a barriga … de riso. Um riso amargo. O caminho para a esperança, faz-se, segundo o nosso presidente, de trabalho, responsabilidade (individual e social) e sobretudo de produtividade. Mais uma vez, a glorificação do trabalho num país de calões, como subtilmente se induz. 

              Ora, eu cá sou menos ambicioso do que o nosso presidente e tenho apenas um desejo para o meu país em 2007. Esse desejo é erradicar a fossanguice, ou pelo menos combatê-la como autêntico flagelo nacional, que mina a nossa coesão como povo.»  (...)

   

   Rui Pelejão Marques  - In « Jornal do Fundão »

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Escrito por J.C.Pacheco Alves em 22:49:13 | Link permanente | Comments (0) |
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