2007/03/01

«POLÍTICA, CIDADANIA E EXIGÊNCIA ÉTICA»

                     

                    NB: AFINAL, AINDA HÁ JORNAIS DE REFERÊNCIA EM PORTUGAL E JORNALISTAS QUE AINDA NÃO HIPOTECARAM A SUA CONSCÊNCIA.  PELA DIGNIDADE QUE SEMPRE MOSTRARAM,MERECEM SER AQUI REFERÊNCIADOS. 

          

         «Aqueles que conhecem o perigo da crise da democracia, provocada pela indiferença colectiva e pela debilidade de participação cívica, só podem encarar como estimulante o surgimento de Movimentos cívicos que, no plano local, ou regional, se propõem debater o presente e o futuro dos territórios que habitam numa postura interpelante dos poderes. Felizmente, um pouco por todo o lado, estão a despertar grupos de cidadãos, certamente aqueles que abominam ter apenas razão a título póstumo, para uma acção política que é não só vital para a própria democracia, como necessária para a afirmação de uma nova pedagogia sobre a cidadania. Esta vitalidade, essa ousadia de pensar em voz alta, essa forma de ser e estar, é reconhecida hoje como imprescindível ao respirar das cidades e das regiões, e, também, como um contributo assinalável para que os poderes possam ter uma visão prospectiva dos problemas. Só os idiotas, que às vezes julgam poder tornar-se proprietários das consciências individuais, olham para a participação cívica, para estes momentos de cidadania, com desconfiança do delito de opinião. Ora, as cidades, por natureza do processo civilizacional que encarnam, são espaços privilegiados da diversidade de opiniões, das vicissitudes do pensamento plural e não único. É nesse microcosmos urbano, nesse espaço físico e humano, que é urgente criar uma cultura de cidade, questionar o elementar direito à felicidade, que começa sempre no quotidiano. Há muitos anos, Henri Lefebre mostrou a essencialidade desse debate como fenómeno de liberdade e de libertação. O presente de que tantas vezes nos queixamos, nasce, em larga medida, da apatia e de medos que certos serventuários menores do poder gostam de pôr a circular.       

            2 – DAMOS hoje relevo à crónica judiciária que fala da condenação de dois altos quadros da administração e da política regional. Embora o universo do delito não seja a politica, isto é, as suas áreas de intervenção, é precisamente da natureza das funções (para lá da censura social que os ilícitos acarretam a qualquer um) que decorre uma exigência ética de actuação no mero plano da cidadania, e, mesmo, da esfera privada. António Sérgio (quantas vezes o temos dito!) bem apelou, e precisamente aos socialistas, para a necessidade dessa transparência e dessa ética de comportamento porque, dizia ele, a política é uma coisa tão importante que coloca sempre a exigência dos melhores. O dever de informar e o direito à informação, duas faces da mesma moeda, mas que sintetizam a importância da imprensa, é um valor que se coloca sempre como vector de liberdade. Às vezes, há silêncios que são um enorme ruído. Não faltam os que, nestas questões, têm dois pesos e duas medidas, configurando a informação à desculpabilização dos poderosos (dos detentores de poder) enquanto guardam o azorrague da denúncia para os mais fracos, os que patinam no gelo das desigualdades. E os partidos? Que censura fazem aos comportamentos desviantes dos chefes que eles próprios criam, num aparelhismo que nunca valoriza a dimensão humana e o carácter dos ungidos pela escolha. Fingem ignorar, esquecem os ensinamentos de Sérgio, como se a politica fosse uma espécie de biombo de impunidades. A grandeza moral da política só se constrói contra essa passividade medíocre. Há realidades que não podem esconder-se. Sob pena de ficarmos reféns dessa pusilanimidade.»  

      Fernando Paulouro Neves   

    In Jornal do Fundão de 1 de Março.

Escrito por J.C.Pacheco Alves em 23:19:57 | Link permanente | Comments (2) |
Comentário
1 - Mais grave que o analfabetismo é a iletracia. E muitos portugueses são hoje iletrados estado que se reflecte no país. A maior parte dos portugueses são hoje agentes passivos, apenas esperando que meia duzia de iluminados pensem por eles. E estamos mesmo bem certos que este estado de paralisia interessa ao poder que nos governa para poderem fazer o que entendem. Não lhes interessa a seriedade mas a mediucridade. E assim vai este país de vento em popa ... (Comentar)

Escrito por: Anónimo em 2007/03/03 - 22:53:56
2 - FELIZMENTE QUE O JORNAL DO FUNDÃO CONTINUA NA SENDA DO QUE NOS HABITUOU HÁ MUITO. E NO PLANO DA ÉTICA E DE DEFESA DA BEIRA BAIXA, O JORNAL DO FUNDÃO NÂO RECEBE LIÇÕES DE NINGUÉM. PENA É QUE POR VEZES SEJA UMA VOZ NO DESERTO DO JORNALIMO QUE TEMOS. OBRIGADO, FERNANDO PAULO LOURO DAS NEVES. (Comentar)

Escrito por: Anónimo em 2007/03/04 - 15:50:24
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