2007/03/18

TURBULÊNCIA OU TSUNAMI?

 

             Profissionalmente vivem-se momentos algo estonteantes. Alguns são mesmo difíceis de descrever, sendo apenas apreensíveis por quem diariamente os sente. E adivinhamos um ano turbulento, tempestuoso. Oxalá, que toda esta agitação não se transforme num qualquer TSUNAMI que, varrendo a segurança que o registo transmite, acabe por nos varrer também a nós enquanto profissionais do registo. 

                  Mas não é timbre nosso entoar música ou cantiga de tonalidade lamurienta. Sempre acreditamos na dinâmica da acção. Pena é que, muitas vezes, o direito à indignação se dissolva, na vulgaridade clandestina, ou apenas em fúria circunstancial, e se calem as bocas, quando necessário se torna exercitar, e digo exercitar responsavelmente, o direito à crítica publicamente.  

                  Quantas vezes o medo, e por vezes também o nosso egoísmo, tolhe a nossa voz, a voz da nossa cidadania? Podem alguns de nós pensar que o que se passa é sintoma passageiro ou que vai mesmo de vento em popa a saúde dos serviços dos registos e que o próprio processo em curso de simplificação os reformará. Tenho dúvidas que tal aconteça e creio mesmo que sem a participação ou interacção dos seus profissionais será difícil vitalizar o instituto dos registos.  

                  Os mecanismos de segurança registral, que deveriam ser aprofundados e mesmo reforçados, nomeadamente com a adopção do sistema de inscrição constitutiva para todos os actos de aquisição de direitos ou constituição de encargos por negócio jurídico, penso que tenderão a ceder num qualquer processo de simplificação. Sendo salutar a inovação e a introdução das novas tecnologias na área dos registos, cremos, no entanto, que sua deificação poderá ter efeitos perniciosos sobre a segurança que o registo deve transmitir. A excessiva concentração do registrador e dos oficiais do registo nos aspectos tecnológicos da inovação e na consequente e excessiva burocratização interna dos serviços, poderá relegar para segundo plano a segurança que cabe ao registo assegurar, podendo mesmo acabar por ceder face à simplificação anunciada e já concretizada no registo comercial. 

                  É forçoso que o nosso sistema de registo evolua, nenhum de nós não deseja essa evolução, mas ela deveria dar-se no sentido da segurança jurídica plena, pelo que deveriam evitar-se os saltos bruscos já que podem ter consequências imprevisíveis. Para nós enquanto profissionais, evolução deveria ser sinónimo de reforço ou consolidação da segurança jurídica, facilitação do intercâmbio dos bens e facilitação do crédito. E porque o registo pode não espelhar a verdade sobre os prédios e sobre os direitos sobre eles, deveria tornar-se obrigatório o registo. Seria importante, para além   da interligação entre os serviços registais fiscais e camarários, de modo que qualquer alteração feita em qualquer dos serviços fosse obrigatória e imediatamente transmitida ao outro serviço, o incremento da execução das operações do cadastro da propriedade rústica e no processamento de operações congéneres relativamente a propriedade urbana.  

                 A crítica, por mais inócua que seja, não poderá nunca ser entendida como se fosse seta envenenada. Uma voz dissonante ou discordante não poderá ser compreendida ou entendida como ousadia excessiva. A nossa responsabilidade profissional e cívica, caros amigos, não poderá nunca ter a virtualidade de subverter a ordem estabelecida. Cidadania não é apenas liberdade. É também responsabilidade. E nós seremos tanto mais credíveis, enquanto profissionais do registo, quanto melhor soubermos explicar à sociedade em geral e aos agentes económicos em particular, a importância do registo para o desenvolvimento e progresso, face  à segurança que o registo promove, sendo certo também que, para além desse progresso, o registo ainda promove o seguro mais económico.

                  

                   E dizemos tudo isto, não que desejemos contrariar modas ou reformismos hodiernos publicitados por slogans que os média anunciam até à exaustão, ou para fazer mesmo qualquer exigência de inclusão ou de participação nessas modas. Não é esta a nossa legitimação. Como é evidente, como profissionais do registo que somos, só serviremos bem a nossa instituição se tivermos sensibilidade e soubermos nós mesmos qual o melhor caminho para os registos.

 

                    Setubal, 17 Março de 2007.

                     Pacheco Alves

                     

 

Escrito por J.C.Pacheco Alves em 00:03:09 | Link permanente | Comments (5) |
Comentário
1 - Não há dúvida de que os responsaveis politicos deveriam ter mais abertura com os profissionais que trabalham no sector dos registos, porque segundo parece tudo está a ser feito à margem destes profissionais. Ninguém ouve ninguém. Alguma humildade não lhes ficava mal. Mas enfim, os portugueses deram-lhes a maioria absoluta e agora sentem-se legitimados para fazerem tudo o que lhes vem à real gana .Há muto, sem dúvida que eram necessárias reformas em toda a administração pública, mas porque só agora sentiram os politicos necessidades das mesmas? Será que o que desejavam era mesmo afundar o funciuonalismo público, para ser mais fácvil depois impor novas regras? É ttriste dizer isto, mas o que está a passar para a opinião pública é que os maus são os funcionários públicos. Então já rep+araram que as instituições bancáriax ninguém toca? É uma vergonha o atendimento dos bancos ...Reduzem o pessoal e quem paga são os cidadãos ... É uma vergonha o que se está a passar com o sector bancário. .... (Comentar)

Escrito por: Abnónimo em 2007/03/22 - 12:37:49
2 - Caro Anónimo 1, é verdade que as reformas estão a ser feitas à bruta. Era bom que se pensasse um pouco ... se reflectisse no que não tem corrido bem. Mas nenhuma reforma que se preze de ser reforma pode ser feita sem a participação ,pelo menos por alguns dpos profissionais que conhecem bem a realidade em que trabalham. O que é cor+porativo é para abater . Mas afinal há algum corporativismpo no sector dos registos? Até a própria ASCR está em morte lenta ... (Comentar)

Escrito por: Anónimo 2 em 2007/03/22 - 18:32:56
3 - Mais claro e mais branco não há. Não era assim que uma das nossa televisões publicitava um detergente? A falta de cidadania está à vista. Mesmo os comentadores que por aqui arriscam umas palávras subscrevem-nas como anónimos. Não se admirem que como personalidade historica os portugueses tenham eleito o ANTÓNIO, o OLIVEIRA, o SALAZAR ! ... Realmente é uma vergonha ... (Comentar)

Escrito por: André António em 2007/03/25 - 12:49:37
4 - Realmente há muito a fazer nos registos e notariado, como há muito a fazer em toda a parte. Há muito que se pode simplificar. Há muito que se pode acelerar. Há muitos procedimentos que podem ser simplificados. Só que, apesar do que diariamente se apregoa na comunicação social, de facto, todos os dias aumentam os procedimentos, aumenta a burocracia. Nada se faz com és e cabeça. O que vem de "cima" não pode ser pensado de forma a funcionar... Dá a ideia de pensamentos de meninos mimados, que nunca na vida trabalharam, e, de um momento para o outro têm o poder na mão e querem mostrar serviço. Esbanja-se dinheiro em procedimentos novos e preferencialemente em novas tecnologias, independentemente de serem ou não as melhores soluções. Não se pensa na solução adequada para a questão, mas na solução (seja-o ou não) mais mediática para a questão, na que causa mais impacto. Não estamos a ser conduzidos por gestores, mas por publicitários. Os funcionários públicos são os alvos a abater, são os inimigos de estimação, o alvo preferido, o saco de pancada. Todos os dias, noticiário após noticiário, entrevista após entrevista, o público em geral é envenenado contra os funcionários. É sempre bom lembrar o que uns tempos atrás o José Santos (português um dos gestores melhores do mundo) disse "Os trabalhadores portugueses são dos melhores do mundo, o problema que se põe é que são mal geridos" e esse é exactamente o problema da função pública. Anos e anos de má gestão, anos e anos de decisões em cima do joelho, anos e anos em que só têm o direito de ser acusados (livro amarelo) sem terem nunca a possibilidade de serem elogiados (porque não criar um outro livro para isso?). O que diáriamente vem de cima é mau, fraco, inconsequente. Será que não dá para virar as coisas ao contrário? Será que se nos unirmos podemos reconstruir a pirâmide pela base? Será que não temos criatividade suficiente e não sabemos o suficiente para "dar a volta ao texto"? Será que não podemos sugerir o que é melhor para todos? Será que temos de depender de associações para o fazermos? Não encontraremos formas novas de modificar isto para melhor, incutindo algum juízo em quem de direito? Perdoem-me a escrita ao correr da pena (da pena era noutros tempos, agora é ao correr doteclado) mas não resisti a usar este espaço com um pouco de "muro das lamentações" (Comentar)

Escrito por: Natacha em 2007/03/30 - 00:10:53
5 - Natacha, qundo quiseres tens aqui um espaço aberto para comunicar. Se quiseres podes contribuir para o REGINOT posso fazer-te um convite. Queres mesmo participar ? Envia para o meu meil o teu desejo de participares. Eram bom, por que isto custa muito a manter. (Comentar)

Escrito por: Pacheco Alves em 2007/04/14 - 19:35:19 em resposta a: 4
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