2007/04/15

MAMAR EM VÁRIOS CARRINHOS

                

             Como  afirma F. Paulouro no Jornal do Fundão, a  mama banalizou-se em Portugal.  Muita gente continua a mamar. Conhecendo-se  tanta"boca na teta", porque não se acaba com o mamanso?  Não deixa por isso, de ser estranho e mesmo perverso, todo o rolo compressor imposto  ao funcionalismo público.   

                 

                  

                     « Uma das facetas mais negativas da política, e que tem motivado o seu descrédtito, é a partidocracia. Num pecado comum às forças políticas que têm sido sustentáculo de governos, detecta-se a voracidade clentelar da ocupação do aparelho do Estado, que tem sido a negação mais evidente de tudo aquilo que seria uma equação do poder baseada na equidade ou no mérito. Na razão directa do vazio instalado à volta e no interior dos partidos, trepa a mediocridade impante, como se o Eleutériozinho da Campanha Alegre, do Eça, idiota predestinado ao mando, fosse, agora, uma nova fatalidade da sociedade portuguesa. A verdade é que isso se tornou de tal forma evidente nos vários círculos do poder, onde se atropelam como assessores ou consultores (ás vezes de coisa nenhuma!) que o sublinhado da caricatura se tornou absurdamente real: quem não tem o cartão do partido do governo (e aqui o governo é em sentido lato, abrange a diversidade dos poderes) é ladrão de si mesmo! Todos conhecem exemplos, seja qualquer for o quadrante em que nos situemos. Todos se cruzam com essas pardas eminências do poder, agora directores disto ou daquilo, conselheiros de matérias obtusas, sentados à mesa abundante do orçamento, mesmo que ingenuamente nos façam acreditar que as vacas magras vieram para ficar a lixar a vida dos outros … Conheço o caso de um fiel escudeiro de um político em ascensão que se notabilizou a levar a pasta do senhor deputado – era na realidade essa a sua grande aptidão profissional – e acabou nos corredores do poder e na ante-câmara do governo como assessor de qualquer coisa …certamente da pasta! Curiosamente, o Estado está enxameado destes espertos que ganham mais que os presidentes das Câmaras ou ultrapassam até, “mamando em vários carrinhos” (haverá expressão mais sublime!) ministros, primeiro-ministro ou presidente da República!

          Face a esta pantanosa conjuntura, que sucessivamente se foi reproduzindo e ampliando na sociedade portuguesa, a capacidade de espanto ou o direito à indignação do cidadão comum vai-se diluindo numa descrença que o “fartar vilanagem” torna insuportável. Todos, menos os usufrutuários do sistema, sabem que essa inevitabilidade está a ferir a própria democracia. Ainda esta semana, o Tribunal de Contas – honra seja feita ao rigor e à independência do Dr. Oliveira Martins – publicitava um relatório em que, analisando as contas dos gabinetes ministeriais, denunciava o clientelismo dos últimos três governos (Durão, Santana e Sócrates) que gastaram em nomeações ilegais mais de 12, 5 mil milhões de euros sem controlo, gastos que, dizia em título o “Diário de Notícias “, pagavam quatro Otas”.

                Há uma enorme perversidade em tudo isto. Todos os que banalizaram a retórica da austeridade e depois abriram as portas aos afilhados, estão metidos nisto até às orelhas. Se tivermos em conta os sacrifícios impostos aos portugueses, o rolo compressor na administração pública, as dificuldades sociais, as exigências de défice, havemos de nos interrogar como foi possível tamanho escândalo continuado. Esta partilha do Estado, como acontece sempre, tem efeitos igualmente nocivos nos comportamentos das autarquias, que em muitos casos violam a lei com o maior dos à-vontades. O Tribunal de Contas, que não tem recursos humanos ilimitados, bem procura fazer pedagogia cívica. Tentando impor padrões éticos. Mostrando ser implacável na denúncia onde quer que a lei seja violada. Valha-nos isso! »

               Fernando Paulolouro Neves  “ In Jornal do Fundão de 5 de Abril”.

Escrito por J.C.Pacheco Alves em 01:33:16 | Link permanente | Comments (0) |
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