2007/05/28

O QUE SE VIVE ... O QUE SE SENTE ! ...

 

                1 - No sector dos registos e do notariado vivem-se momentos de grande preocupação, de tensão silenciosa e silenciada. Sendo a estabilidade, bem absolutamente essencial ao regular funcionamento dos serviços da administração, por evidentes reflexos na qualidade do serviço prestado, será importante solver e clarificar os  problemas com que se debatem os serviços dos registos, hoje dependentes do recém-criado Instituto dos Registos e do Notariado. A linguagem do silêncio, caminho adoptado pela maioria dos profissionais que laboram nos serviços dos registos e do notariado, constitui para nós sinal revelador da evidente preocupação e tensão que se vive.
               Quando os média deste País, na sua maioria, se limitam a apontar os defeitos da nossa administração pública, onde quase todos os dias se anunciam decisões, e se conjectura sobre essas mesmas decisões, omitindo-se o essencial, não se tornando claro o caminho, o rumo, se é que existe, teremos de dizer que está criado o clima propício à destabilização. Será muito mais fácil, perante uma administração pública enfraquecida, impor o quer que seja, sendo mesmo muito mais fácil, por este caminho, reduzir o núcleo essencial dos direitos dos agentes da administração. Exigiam-se, efectivamente, reformas no sector administrativo do Estado, como há muito e repetidamente temos revelado. Cremos, no entanto, que o modus fasciendi, primando não pela inclusão, terá consequências profundamente negativas na realidade que se pretende modificar.

               Injustamente diaboliza-se toda a administração pública. Mas o que ninguém revela, e que é evidente, é a falta de qualidade, a falta de eficácia e eficiência de muitos serviços do sector privado, nomeadamente dos serviços de algumas instituições bancárias, algumas delas, hoje transformadas em autenticas agências imobiliárias. E não será preciso ter “olhos de lince”, pois o tempo que se perde e o modo como são atendidos os cidadãos em muitas dessas instituições não é comparável sequer com muitos dos nossos serviços públicos.  

                  2 - Como diz Fernando Paulouro das Neves, in Jornal do Fundão «o direito ao pensamento e a sua formulação pública, funde-se na própria dignidade da vida». E dizemos isto porque há questões complexas, algumas mesmo profissionalmente graves, outras relacionadas com a capacidade e qualidade dos nossos serviços, que por evidente responsabilidade profissional e cívica, os oficiais do registo e os conservadores deveriam questionar, já que, estranhamente, a própria ASCR e os sindicatos que se dizem representativos dos trabalhadores não se dignam abordar.         
               Afinal, para que servem estas organizações? Será que existem apenas para cobrar as quotizações mensais aos seus associados? E estando legitimadas as direcções destas associações, porque não promovem um amplo diálogo em torno dos reais problemas com que os serviços se debatem? E podendo, eventualmente, promover acções de formação dos seus associados, como normalmente referem os seus estatutos, será que poderão substituir o Estado na urgente missão de propiciar formação necessária e adequada a todos os agentes da administração?
               Parece que tinha razão o pedagogo, o filósofo, pois parafraseando o saudoso Agostinho da Silva, preferimos assumir-nos apenas pelas semelhanças, quando era essencial afirmar-nos essencialmente pelas nossas diferenças. E enquanto a Santa Madre Igreja parece ter posto fim ao limbo, lugar destinado às criancinhas não baptizadas, a sociedade portuguesa, pelo contrário, mostra-se ou revela-se límbica para todos os que não pensam ou não agem muito igualzinho. Assim se anatematiza, se fulmina com a exclusão.
             A crítica, salvo raras excepções, emerge a mais das vezes daquela esperteza que todos nós conhecemos. Censura-se alguém, o ministro A, o secretário B, o deputado dum qualquer partido, o autarca, mas no fundo o que se inveja são sempre os maus exemplos. Como alguém com responsabilidades um dia disse, “ é assim a vida”. E cá vai andando o País, não como se dizia antigamente “cantando e rindo”, mas agora de gemido em gemido, de lamento em lamento. 

              3 - Os problemas nos serviços administrativos do Estado, e em especial no sector dos registos e do notariado, têm história longa. O caminho por onde se caminha, que se tem acentuado em centralismo exacerbado, apenas tem contribuído para tornar a realidade dos serviços dos registos muito mais complexa. A actividade desenvolvida nos nossos serviços, embora, tecnologicamente, tenha tido alguns avanços, revela-se hoje, no entanto, além de insegura, muito mais burocratizante. O arranjo ou a necessidade de aquisição de coisas simples nos serviços, exigindo a intervenção de um director de serviços, ou de um outro qualquer responsável dos serviços centrais, torna a vida em muitos deles mais complexa.
              Sendo as conservatórias dirigidas por conservadores, pela formação adquirida, e pelo estatuto que têm ou deveriam ter, não se compreende muito bem porque não é reforçada a sua responsabilidade. Afinal, para que servem estes profissionais? Apenas para assinarem registos? Ou para os responsabilizarem por problemas que estão fora do seu controlo? E como será possível laborar com seriedade, e num serviço onde é essencial a concentração e reflexão, se constantemente os oficiais e o próprio conservador são telefonicamente interpelados pelos cidadãos utentes do serviço, aos quais todos temos o dever de responder até ao fecho do serviço? E como foi possível optar por uma aplicação informática (SIRP), que não deixando de ter algumas soluções positivas a nível dos procedimentos contabilísticos, constituiu genericamente um entrave sério ao desenrolar normal do serviço?
             Com alguns dos nossos serviços assoberbados de trabalho e problemas, é de realçar o elevado profissionalismo de oficiais dos registos e conservadores, que, com evidente prejuízo, da vida pessoal e familiar, trabalham, muitas vezes, muito para além do que é normal. E não sendo possível a reflexão durante a jornada normal de trabalhos, muitos dos problemas terão de ser reflectidos e decididos, mesmo durante os próprios fins-de-semana. Não será de todo compreensível, sendo mesmo injustificável, a agressividade de que são alvo muitos dos nossos serviços públicos. 
               Os momentos que se vivem são assim de intranquilidade, de insegurança, fruto da apelação neoliberal, que vê e elege os serviços públicos como inimigos do cidadão e da própria sociedade. 

               As palavras não são nossas, pois como refere Batista Bastos: «Há trinta e três anos alimentamos um sonho buliçoso, sentimental, ocasional e frágil. O despertar desfez a fábula de que as coisas devem pertencer a quem as ama. Talvez sejamos culpados porque não soubemos defender com paixão o que, apaixonadamente, desejávamos nos pertencesse.» Não soubemos, assim, transformar Abril em acção e missão de cumprimento.

                Setúbal, 27 de Maio de 2007.

                 J.C.P. Alves

Escrito por J.C.Pacheco Alves em 23:34:26 | Link permanente | Comments (5) |
Comentário
1 - Caro Pacheco Alves:
Felicito-o pelo seu esplêndido texto e pelo seu inconformismo. Estamos perante uma política governamental firmemente decidida a desmantelar o Estado Social, começando, obviamente, pela destruição da FP, cujo primeiro passo foi o de a apresentar perante a opinião pública como a responsável maior de todos os males, incompetente, ineficaz e sorvedoura da riqueza nacional. Objectivo imediato: isolar os trabalhadores da FP, privando-os da solidariedade dos trabalhadores do sector privado, de modo a que a sua justa luta pelos direitos adquiridos (sem as aspas que agora é comum usar na grafia destas palavras) conquistados com duras lutas e sacrifícios, surja aos olhos da opinião pública mais incauta como uma desprezível, corporativa e egoísta reacção contra a perda de "privilégios" (aqui sim, as aspas fazem sentido).
Estão a falhar, pois em todas as jornadas de luta se tem verificado que os trabalhadores continuam solidários! Posso afirmá-lo porque tenho estado presente e participado em todas elas.
Não duvido de que amanhã, de novo, os trabalhadores se unirão em torno da CGTP-IN, única organização sindical que se tem mantido incondicionalmente ao lado dos trabalhaores (tanto da FP, como do sector privado), numa jornada de luta que vai, como de costume, ser quase ignorada pela comunicação social e ser desvalorizada pelo governo "socialista" (mais uma vez se justificam as aspas). E também tenho a certeza de que acabaremos por vencer e realizar Abril.
Um pequeno à parte: passo diariamente à porta do Ministério do Trabalho e da Segurança Social, onde agora afixaram uns cartazes dizendo, cito de cor, "Construir uma sociedade inclusiva". Estão a gozar connosco: salários e pensões congeladas a partir de patamares baixissimos, justiça caríssima, "taxas moderadoras" para quem tem que recorrer aos hospitais, mesmo que enviados por médicos do SNS, aumentos das participações sociais, redução do subsídio de desemprego, etc, ou seja, empobrecimento cada vez maior dos mais carenciados e aumento escandaloso da riqueza de um número cada vez mais restrito de privilegiados e vêm dizer que trabalham pela inclusão ?! ...
É preciso, é urgente, realizar Abril, quando já ocorrem episódios que mostram o ressurgimento de "bufos" e que há chefias que consentem ou, se calhar, os incentivam a "chibar", porventura certas de que essa postura e as subsequentes perseguições por delito (?) de opinião que rascamente protagonizam, longe de merecer uma rápida e indignada reacção por banda dos responsáveis máximos dos serviços e da governação, pode, pelo contrário, valorizar o seu currículo e alcandorá-los a cargos de maior proeminência, dito mais prosaicamente, valer-lhes um "tacho".
Isto é um escarro no 25 de Abril!
É a tudo isto que amanhã vamos, cada um a seu modo, dizer NÃO!
Viva a jornada de luta dos trabalhadores!
VIVA A LIBERDADE! (Comentar)

Escrito por: Cícero em 2007/05/29 - 14:03:05
2 - Cícero, o que escrevi apenas reflecte o que sinto. Mas poderia eventualmente dizer muito mais, mas estamos numa época em que é preciso pesar muito bem as palavras ... não vá o diabo tecê-las. Sabe o que é que aconteceu ao professor lá em cima no norte ... Nunca pensei que era possível o tempo voltar para trás. (Comentar)

Escrito por: pacheco alves em 2007/05/29 - 21:43:06 em resposta a: 1
3 - Caro Pacheco Alves:
Desculpe-me a liberdade de expressão, mas você, como bom beirão, não se vai escandalizar. Como se diz na minha terra, "para trás mija a burra". Temos o dever indeclinável de deixar aos nossos filhos e netos (é o meu caso) um país livre, onde os "bufos" sejam olhados e tratados como aquilo que são: biltres; e aqueles que incentivem os "bufos" a "chibar" sejam encarados com nojo.
Aqueles que, como eu, terão a possibilidade de votar nas intercalares das autárquicas de Lisboa, têm na mão uma oportunidade de ouro de mostrar um cartão vermelho ao governo. Não, certamente, votando PSD, CDS ou nos ditos independentes, todos pertencentes ao centrão que nos conduziu ao estado a que chegámos, tal como, aliás, o partido do governo, mas no PCP. Se elegermos o Ruben Carvalho faremos o chamado 2 em 1: mostramos o tal cartão vermelho ao governo "socialista" e colocamos na CM de Lisboa um homem inteligente, culto e íntegro, com uma equipa de gente séria.
Por mim, já decidi: tal como nas eleições anteriores, votarei Ruben Carvalho, cuja actuação só renovou a minha confiança nele.
Resistir e dizer não, sempre, à injustiça, à hipocrisia, à exploração e à prepotência pode causar-nos dissabores, é verdade, mas pior, muito pior do que isso, é perdermos a LIBERDADE!
Viva a greve geral! Vivam os trabalhadores!Viva a liberdade!
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Escrito por: Cícero em 2007/05/30 - 00:18:54
4 - Bem... Mais uma vez não resisto... Realmente a questão do professor da DREN é perfeitamente surreal. Mas, pelos vistos, estamos num país surrealista. E esse é mais um motivo para a mudança se fazer da base para o topo da pirâmide. E é também mais que um motivo para que se lute de uma forma diferente, de uma forma criativa. Salvo os devidos respeitos as formas tradicionais de luta "já eram". E é isso que me parece que nem os sindicatos, nem as associações parece ainda não se deram conta. As formas de luta do seculo XX, não são nem podem ser as mesmas do século XXI. Será bom lembrar que nem a decada, nem o século nem o milénio são os mesmos. E isso tem de ter um significado. E o surrealismo é um movimentos rico em significados. Vejamos o quadro da Dali "A persistência da memória". Será que alguém consegue ficar sem imaginar tudo o que significam aqueles relógios a derreter? Ou seja, por outras palavras... A mensagem está na imagem. E isto trás-nos a uma velha questão. Que imagem é que temos perante os olhos dos outros? Aquela que dão de nós ou aquela que nos mostra como somos de facto? Bem, de certeza não temos dúvidas que todos os dias pintam a nossa imagem das cores mais tenebrosas que existem. E que tal mudar de métodos para mudar de imagem? Será que não conseguimos mesmo "derreter" corações? Que é como quem diz, derreter algum tipo de políticas? Que é que temos feito para mudar de uma forma moderna, contemporânea... surreal? Que formas poderemos utilizar sendo criativos e positivos (já vimos que dizer apenas mal não chega). Há formas de luta que não me saem da cabeça. Lembram-se de quando todos juntos lutamos por Timor? Vestimos de branco, atiramos flores ao mar, etc. E foi exactamente quando nos unimos, deixamos as cores partidárias, fomos criativos e positivos, e usamos formas nunca antes vistas que se catapultou para todos os problemas para a ribalta mundial. Sem querer criticar os MacCann... Para lutarem pela filha, usam de acessores de imagem. Ainda não conseguiram nada, mas que têm lutado têm. E nós? Que tal principiarmos a aprender umas coisas e dar a grande pedrada no charco? Eu tenho algumas ideias... (Comentar)

Escrito por: Natacha em 2007/06/04 - 22:59:44
5 - Natacha, escreves com arte e muita imaginação. Vou dar-lhe ao teu comentário a relevância que merece. Obrigado por nos teres presenteado com este artigo tão belo. (Comentar)

Escrito por: Pacheco Alves em 2007/06/05 - 00:10:49 em resposta a: 4
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