2007/06/25

« O IMPERADOR QUE NÃO GOSTAVA DA SOMBRA»

        

          Pela  ironia contida e sábia, vale apena transcrever aqui o artigo publicado em Editorial no Jornal do Fundão de 21 de Junho, da autoria do seu Director, Fernando Paulouro das Neves.

            E perguntamos nós: será que voltamos ao tempo da ironia oculta?

          «Houve um tempo em que os imperadores e outros dignitários não suportavam a sombra. Tratavam dos negócios de Estado em grandes reuniões em que a sua vontade jamais era questionada. Os conselheiros que eram súbditos, só sabiam dizer uma palavra: Sim! Passou ainda muito tempo até que Sidharta rompesse as muralhas do palácio e viesse descobrir a dor humana. Os imperadores continuavam na sua liturgia áulica na esperança de que o seu universo de poder pudesse crescer até ao céu e porventura alimentar-se dele na procura de uma glória que, cada vez mais, exorbitava da terra. As nuvens, lá no alto, desenhavam eternas fantasias e o imperador começou a ver-se retratado nelas, caminhando pelo espaço como um deus. Quando, subitamente, as nuvens se desfaziam em tempestade ou em miúda chuva que fazia a terra respirar melhor, o imperador enfurecia-se e na raiva desses instantes mandava matar os súbditos que, segundo os ouvidos dos informadores, tinham levantado os olhos para o céu e murmurando que não era a figura do imperador que por lá andava, mas sim nuvens, que eram boas porque traziam a chuva e a fertilidade. O imperador deixou de olhar o céu e passou a fixar-se na água, que reflectia o seu rosto. Mas logo o marulhar das ondas fragmentava a imagem e o rosto do imperador diluía-se no vazio. Logo o imperador mandava inquirir quem tinha agitado a quietude das fontes, dos rios e dos mares. Havia sempre culpados. À volta do imperador, os súbditos continuavam a balbuciar apenas a mesma palavra: Sim! Agora o imperador queria um registo da sua figura, que fosse eterno e na força dessa eternidade já não pudesse configurar e efemeridade das nuvens e da água. Mandou, então, que lhe erguessem uma estátua enorme, cuja dimensão encarnasse o mito em que ele próprio se alimentava. Vieram legiões de escravos e de trabalhadores, que arrastaram pedras da altura do palácio. Escolheu o imperador a maior e logo começou a ser cinzelada para adquirir a forma de colosso. Afeiçoou-se a pedra à sua figura que no meio da Praça foi crescendo, crescendo. Veio o dia da festa e imperador chegou à varanda do palácio para olhar de frente a sua escultura, na certeza de que ela prolongasse infinitamente o tempo e realizasse a eternidade. Mas era grande o colosso e imensa a sombra que projectava. O imperador, como fazia a todos que lhe fizessem sombra, mandou decapitá-la. A estátua tombou, com fragor, no chão. O imperador sorria . Até que, subitamente, um dos seus áulicos conselheiros, talvez o mais fiel servidor, subitamente, fez um gesto rude com a mão e passou a fio de espada a cabeça do imperador. Nesse dia, a sombra tornou-se uma coisa natural, o imperador novo passou a ser apenas um homem. E os súbditos deixaram de ter medo das palavras. Séculos passaram. Sidharta passava finalmente a porta do palácio ao encontro da comum humanidade. Muitos milénios depois, continua a haver quem diga, quando a Praça se enche de vozes, que a democracia é uma grande chatice. Pena não ser tudo súbdito.»

Fernando Paulouro Neves

“Jornal do Fundão”

Escrito por J.C.Pacheco Alves em 23:37:54 | Link permanente | Comments (2) |

2007/06/19

HINO AO CASA PRONTA

      

        Já que o tema é a poesia, não resisto a deixar aqui um poema de Vinicius de Moraes, que alguém me lembrou hoje que poderia bem ser um hino ao "Casa Pronta", passo a transcrever:


Era uma casa muito engraçada
Não tinha tecto não tinha nada
Ninguém podia entrar nela não
Porque na casa não tinha chão
Ninguém podia dormir na rede
Porque na casa não tinha parede
Ninguém podia fazer pipi
Porque penico não tinha ali
Mas era feita com muito esmero
Na Rua dos Bobos número Zero.

Para quem apreciar pode até fazer karaoke em http://www.microke.com/
Natacha

Escrito por J.C.Pacheco Alves em 00:32:37 | Link permanente | Comments (2) |

2007/06/16

ÁFRICA

      

         E porque não um momento para a poesia?

        Também nós calcorreamos África: Angola, Guiné-Bissau, Senegal e Cabo Vede.  África , e em particular Angola, apesar de tudo, apesar da guerra que vi e também vivi, valeu sempre a pena. Não devemos esquecer a experiência adquirida e tudo o que ficou para trás, quando o que se passou teve influência positiva em  nós. Por isso e só por isso, e em homenagem a todos aqueles que ficaram e que talvez nunca mais verei, aos que foram meus  alunos, a semente mais valiosa que deixamos, a todos os professores,   ex- cooperantes,   presto  aqui a minha mais sentida homenagem.
               Ficou o sonho e a amizade, sempre,  com o povo africano.


                         Canto quando ando
                         A bruma dos teus olhos, a vida da tua alma,
                         África!...

                         Pego  no cacochi e sai ritmo,
                         Na  marimba e chia que chia !...
                         Agarro o n´hungo e diz   hem do  vem!...
                        
                         E é  este canto que  perpetua
                         A recordação que de ti faço,
                         África ...

                        
                         Nunca  me ofertaste fortunas,
                         Não te fiz promessas imaginárias,
                         E destruidoras...
                         Também nunca me mostrei mercenário

                         Mas  em ti,
                         Encontrei a oferenda que consola,
                         Que nos lança  na vida e integra

                        Devo-te estes ritmos,
                        A música do  meu cantar, África!...
                        E é   este palpitar e toda esta  estima
                        Que  ainda me constrói e anima a vida

                        pacheco alves   (Setúbal,1993)
                        



Escrito por J.C.Pacheco Alves em 13:38:33 | Link permanente | Comments (2) |

2007/06/12

PROJECTO CASA PRONTA

 

         Sobre o projecto CASA PRONTA,  que brevemente irá ser implementado em alguns municípios, competia-nos, enquanto profissionais, questionar e emitir a nossa opinião sobre o referido projecto. Por  míngua de qualquer comentário por parte desses  profissionais,  valerá a pena meditar sobre o parecer do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público.
http://smmp.pt/doc/parecer_casa_pronta.pdf

Escrito por J.C.Pacheco Alves em 19:55:07 | Link permanente | Comments (2) |

2007/06/06

COMENTÁRIO DE NATACHA

               Bem... Mais uma vez não resisto... Realmente a questão do professor da DREN é perfeitamente surreal. Mas, pelos vistos, estamos num país surrealista. E esse é mais um motivo para a mudança se fazer da base para o topo da pirâmide. E é também mais que um motivo para que se lute de uma forma diferente, de uma forma criativa. Salvo os devidos respeitos as formas tradicionais de luta "já eram". E é isso que me parece que nem os sindicatos, nem as associações parece ainda não se deram conta. As formas de luta do seculo XX, não são nem podem ser as mesmas do século XXI. Será bom lembrar que nem a decada, nem o século nem o milénio são os mesmos. E isso tem de ter um significado. E o surrealismo é um movimentos rico em significados. Vejamos o quadro da Dali "A persistência da memória". Será que alguém consegue ficar sem imaginar tudo o que significam aqueles relógios a derreter? Ou seja, por outras palavras... A mensagem está na imagem. E isto trás-nos a uma velha questão. Que imagem é que temos perante os olhos dos outros? Aquela que dão de nós ou aquela que nos mostra como somos de facto? Bem, de certeza não temos dúvidas que todos os dias pintam a nossa imagem das cores mais tenebrosas que existem. E que tal mudar de métodos para mudar de imagem? Será que não conseguimos mesmo "derreter" corações? Que é como quem diz, derreter algum tipo de políticas? Que é que temos feito para mudar de uma forma moderna, contemporânea... surreal? Que formas poderemos utilizar sendo criativos e positivos (já vimos que dizer apenas mal não chega). Há formas de luta que não me saem da cabeça. Lembram-se de quando todos juntos lutamos por Timor? Vestimos de branco, atiramos flores ao mar, etc. E foi exactamente quando nos unimos, deixamos as cores partidárias, fomos criativos e positivos, e usamos formas nunca antes vistas que se catapultou para todos os problemas para a ribalta mundial. Sem querer criticar os MacCann... Para lutarem pela filha, usam de acessores de imagem. Ainda não conseguiram nada, mas que têm lutado têm. E nós? Que tal principiarmos a aprender umas coisas e dar a grande pedrada no charco? Eu tenho algumas ideias...


Escrito por: Natacha em 2007/06/04 - 22:59:44

Escrito por J.C.Pacheco Alves em 13:25:08 | Link permanente | Comments (5) |

2007/06/03

LIBERDADE VIGIADA

 

Nb. Imagem retirada do "Jornal do Fundão".

     1 - Não somos uma voz no deserto. A ideia de que se vive hoje uma paz podre em muitos dos nossos serviços da administração pública, e em especial nos serviços dos registos e do notariado,  como referimos no post anterior,onde se vivem momentos de grande preocupação, de tensão silenciosa e silenciada, é reforçada pelo artigo de Fernando Paulouro Neves, publicado no Jornal do Fundão de 31 de Maio, com o título “LIBERDADE VIGIADA”. Sob a velha capa do autismo, atitude mental esquizofrénica, a realidade, a verdadeira, continua ausente, dos propósitos dos dirigentes e dos nossos representantes no parlamento. O caminho seguido não tem revelado qualquer sentido reformador, concentrando-se mais a acção na destruição dos serviços, nomeadamente dos serviços dos registos e do notariado. E como se interroga o jornalista, será que “voltaremos ao tempo da ironia oculta ou em voz baixa para não incomodar suas excelências? “ 

              2 - « (…) O país está cheio de burocratas que, na ânsia de prestar serviço, só agravaram a imagem dos que julgam inatacáveis. O caso do professor de inglês, que trabalhava há vinte anos na Direcção de Educação no Norte, e foi suspenso por ter feito, “ comentário jocosos ” sobre a licenciatura de Sócrates, é uma vergonha. Vasco Pulido Valente lembra que isto não acontecia nem com Mário Soares, nem com Sampaio. “Os dois tinham aprendido à sua custa o preço da liberdade”. E lembra aquilo que é uma nódoa: “Fernando Charrua, o professor da DREN (por acaso, ou não por acaso, um militante do PSD), é o primeiro português condenado por um crime político depois do 25 de Abril ou, se quiserem, do 25 de Novembro”. Um sinal que convém registar. Voltaremos ao tempo da ironia oculta ou em voz baixa para não incomodar suas excelências? Nunca ouviram falar nas cantigas de escárnio e maldizer? ».

Setúbal, 4 de Junho J. C.P. Alves

 Leia em  http://www.jornaldofundao.pt/index.asp?idEdicao=486&idSeccao=4505&Action=seccao

Escrito por J.C.Pacheco Alves em 16:00:54 | Link permanente | Comments (0) |