Arquivo para Março 7th, 2008

«A TEORIA DA DEMOCRACIA MUSCULADA E A CRISPAÇÃO»

Sexta-feira, Março 7th, 2008

       O JORNAL DO FUNDÃO  constiuiu para nós uma referência no jornalismo. E podemos dizê-lo, sem qualquer complexo, que ele também nos ajudou a construir a ALMA. O seu fundador, António Paulouro  e o actual Director, Fernando Paulouro Neves, jornalistas e homens de referência, merecem um cantinho sempre muito especial no REGINOT. Jornalistas de palavra séria, eticamente irreprensíveis, nunca se deixaram vencer pelos poderes circuntanciais e o caciquismo que, por vezes,  os rodeiam.         
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       Alguma coisa se passa na sociedade portuguesa que devia produzir alguma inquietação na área do poder. Há um estado de crispação, que tem alastrado pelo país, sobem os queixumes que já não se reduzem ao restritivismo dos interesses das corporações, aumenta o “ direito à indignação”, como espécie de último recurso face à indiferença do Governo. Questões tão sensíveis como a pobreza (…) – fenómenos tão dramáticos como o desemprego e o crescimento das desigualdades, merecem alguma coisa do que o estafado argumento (tão de cariz salazarento) de que quem não está connosco ou é tolo ou é mal intencionado. Chegou-se ao cúmulo, depois de mais de três décadas de democracia, de se vir imputar ao radicalismo comunista ou a meros propósitos estratégicos do populismo em voga no PSD, a expressão pública dos protestos ou o sentido de iniciativas cívicas de carácter muito mais abrangente e plural. Ora, toda a gente sabe – basta ter em conta, aliás, alguma retórica em curso – que o descontentamento também afecta expressiva base social de apoio do Partido Socialista, inquieta com aquilo que tem vindo a ser definido como “ falta de sensibilidade social” de um Governo sobretudo apostado na gestão economicista e na estratégia reformista. È certo que este último conteúdo, ainda que com hesitações de circunstância, provocaria sempre descontentamentos numa sociedade, cujas reformas estruturais foram sempre adiadas, ou então, feitas apenas para tudo continuar na mesma. A questão da eficácia e do alcance das políticas reformistas, e da sua racionalidade, medem-se, também, pela capacidade da pedagogia política que se puder realizar à volta da sua imposição. A pressa de as construir apressadamente, começando às vezes pelo telhado, é o meio caminho para a sua ruína. Num país, como o nosso, marcado por muitos défices, entre eles os do debate político e da participação cívica, o autismo político e a incapacidade para perceber sinais na sociedade, aliados à tendência para o autoritarismo, são fenómenos desencorajadores e apenas podem agravar a anemia cívica que tanto condiciona a hora que vivemos. O que se passa com os professores é, talvez, a imagem mais visível da crispação e das contradições que minam o sistema educativo. E cabe perguntar por que razão o Ministério da Educação deixou degradar o diálogo a tal ponto que a conflitualidade entre as partes atravessa hoje, com intensidade, o país inteiro. E, do mesmo passo, que responsabilidade tem no recrudescimento do descontentamento a teoria musculada do “ manda quem pode, obedece quem deve”, de que a imagem policial a recolher identificações dos professores que falaram para as televisões não deixa de ser um certo paradigma. O país navega em crescimento onda de contestações. Talvez no ruído, que parece cada vez mais intenso, se esqueçam questões centrais do quotidiano, que também era bom terem visibilidade. O aumento do custo de vida – até o pão! – o desemprego dos jovens, o país do trabalho precário e a recibo verde, os salários baixos da generalidade dos trabalhadores e os salários altíssimos dos gestores (mais altos que na Alemanha!), os horizontes de futuro cada vez mais longe. No meio de tudo isto, como é necessário voltar aos versos de Raul de Carvalho: “Vem, serenidade”…

Fernando Paulouro Neves
Jornal do Fundão de 6 de Março.