CARTA DO FUNCIONÁRIO DESILUDIDO

 

Porra!
Não vou trabalhar mais
Já disse: não vou trabalhar mais

Ouviram?

Não façam orelhas moucas
Estou cansado, farto de fazer de conta
Não quero continuar a ter este papel
E que não passa de manga- de-alpaca
Por isso…
Não me obriguem a trabalhar mais

Ouviram ou não?

Deixei-me …Deixei-me ser sem mesuras
Porque não sou
Não quero ser mais um qualquer funcionário
Não sofro de apatia e muito menos de abulia

Porra!
Então não é verdade?
O País não está demasiado fragilizado,
Funcionalizado,
Menos responsabilizado?

Senhor Presidente da República,
Senhor Primeiro Ministro,
Senhores Ministros
,

 

 

Pavonear não é resolver problemas
É apenas aparentar

Libertem o país de todas as amarras
Exijam, exerçam a autoridade,
Mas não coloquem a qualificação na prateleira
Corram com os Jobs for the Boys,
Com a mediocridade, as imitações,
Não venham com as litúrgicas fatalidades
Nem com o alibi do destino
Não venham com discurso das ciclópicas tarefas
E muito menos com o das prioridades

Excelências,

Não culpem o rio, nem a corrente da água
A violência
A violência sabemos onde está
E nas duas margens partidas do rio,
Há muito quebradas,
Está o retrato de Portugal
pacheco alves, Setúbal, 10 de Março de 2001)

 

 

 NB: E não será que a carta continua actual?   
 
      

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