2008/01/24
Em 17 de Março do ano que passou escrevemos o artigo que novamente publicitamos, e com o título “Turbulência ou Tsunami”. Pela sua actualidade, republicamo-lo aqui novamente. E num mundo em que a palavra escrita está em desuso por parte de quem tinha o dever e a responsabilidade de esclarecer o caminho que se pensa para os serviços dos registos, num mundo em que é hoje quase um crime fazer o debate de ideias, num mundo em que algumas associações sócio profissionais pura e simplesmente hibernaram ou entraram em estado de hipnose, acreditando hoje que o tenham feito por consciente idiossincrasia, ou talvez por mero oportunismo, teremos de dizer que, restaram muito poucos. Ficaram os que humildemente acreditaram sempre na virtualidade da democracia, na cidadania, no debate de ideias. Estes são os que o sistema apelida de “Velhos do Restelo”. Os outros são “crânios”, os que Deus bafejou com a suprema inteligência.
2008/01/21
MENTIRA E DIREITO À VERDADE
MENTIRA E DIREITO À VERDADE
Anselmo Borges
padre e professor de Filosofia

Quando se reflecte sobre a mentira, é difícil não vir à mente o famoso paradoxo de Epiménides. Diz um cretense: "Todos os cretenses são mentirosos." Sendo cretense, também ele mente. Então, a sua afirmação é verdadeira ou falsa?
Pessoalmente, também lembro uma estória que um jesuíta me contou. Ah! o céu vai ser a coisa mais fabulosa que possamos imaginar. Mas, nos primeiros dois-três dias, no fim do mundo, antes da entrada no céu, quando Deus começar a entregar os filhos aos verdadeiros pais e o dinheiro aos verdadeiros donos, portanto, quando se repuser a verdade, que confusão!...
Afinal, independentemente do paradoxo do cretense, todos mentimos. Mentimos às crianças e ensinamo-las a mentir, com este resultado caricato: "O pai disse para dizer que não está em casa." O miúdo acha que a tia é feia e diz-lho na cara, mas é claro que vai ser repreendido.
Se uma mulher gorda nos pede a opinião - "Estou gorda, não estou?" -, vamos aliviá-la: "Nem pense nisso!"
Imaginemos que uma bela manhã todos se levantavam com a decisão firme de, fossem quais fossem as circunstâncias, dizerem na cara dos colegas, dos amigos, dos vizinhos, dos superiores hierárquicos, dos amantes, dos companheiros de viagem em comboios e autocarros, dos imbecis, dos governantes, fosse de quem fosse, o que verdadeiramente pensam deles. O que seria a vida social sem algumas mentiras ou, pelo menos, sem a omissão da verdade nua e crua?
Os políticos! Desses diz-se que têm como condição de sobrevivência mentir.
Depois, há sempre o que não é conveniente...
E é assim que a verdade raramente se diz, pelo menos toda. Porque realmente não é conveniente: nem na política, nem nos media, nem no sexo, nem aos amigos - Pascal escreveu que, se os amigos soubessem o que os amigos dizem deles na sua ausência, talvez não restassem no mundo mais do que dois ou três. O que pensam e dizem realmente de nós os nossos amigos? Quereríamos saber?
Todos mentimos. Há, porém, mentiras e mentiras. Tomás de Aquino distinguiu entre mendacium - mentira - e falsiloquium - não dizer a verdade a alguém que não precisa de sabê-la ou não tem o direito de sabê-la. No limite, pode acontecer que mentir seja uma obrigação moral. Se um assassino procura um inocente para matá-lo, deve-se mentir quanto à sua localização. O detentor da chave do segredo para desencadear a guerra nuclear deverá mentir ao terrorista que a exige...
A mentira não se refere imediatamente à verdade, mas à veracidade: dizer a alguém o contrário do que se julga ser verdade, com a intenção de enganar. Aprofundando mais, deve-se acrescentar: não dizer a verdade a alguém que tem o direito de sabê-la. M. Onfray escreveu que nunca se deveria mentir, fossem quais fossem as consequências, como exige Kant; mas, se Kant tem razão em princípio, esse princípio é na realidade não vivível, impraticável; por isso, aceita a definição de mentira como "o facto de não dar a verdade, sem dúvida, mas só a quem é devida". Uns têm direito a ela, outros não: por exemplo, um nazi que procurava um judeu para matá-lo não tinha o direito à verdade. Deve-se distinguir "a mentira prejudicial, impura, a que procura um engano destinado a submeter o outro, a limitá-lo, a evitá-lo, a desprezá-lo, e a mentira para ajudar, limpa, chamada por alguns mentira piedosa, a que cometemos, por exemplo, com a finalidade de poupar sofrimento e dor a uma pessoa querida".
Em Portugal, quando se olha para as promessas incumpridas dos políticos, jogos obscuros na banca, subterfúgios à procura da localização de aeroportos, uma política de saúde que fecha maternidades e urgências e descura pobres e velhos, o caos na justiça, um leque salarial gritantemente indecoroso, previsões inverdadeiras da inflação e outras infindas manobras com corrupção activa e passiva à mistura, tem-se a sensação de que se avança em terreno minado pela mentira, com uma democracia perplexa, triste e quase impotente. Quando os portugueses têm direito à verdade.
Publicado no Diário de Notícias de 19 de Janeiro.
2008/01/20
OLHAR DE FRENTE E EM FRENTE
ACHO QUE DEVEREMOS CONTINUAR A ACREDITAR. "AINDA RESTA UMA ESPERANÇA: NÓS". COMO AFIRMA HOLDERLIN:"ONDE NASCE O PERIGO NASCE TAMBÉM AQUILO QUE SE SALVA."
Olhar ... olhar de frente
Deve ser lema de toda a gente
E nunca ...
Nunca mesmo desanimar
Profissionais dos registos,
Honrem sempre o Vosso trabalho
Dele não têm que se envergonhar,
Desonra será não amar
Mas não esqueçam nunca ...
Importante é pôr o coração a ver
E olhos a observar!...
De cabeça, como sempre ... erguida !
Com autenticidade e de gesto simples,
Sobrará sempre energia para alimentar a Vida!
Praias do Sado, 13 de Dezembro de 1998 (pacheco alves )
2008/01/14
VOZ DIVINA
Urge quebrar amarras, as névoas deste PORTUGAL incauto ! Urge que não se pare ... Urge que se sonhe! É necessário rasgar o destino, desfazendo as nuvens da ilusão que persistem, que continuam a assombrar o país.
Desperto
Em noite iluminada ...
P`ra além de sonhos de esperança
Alcanço cintilante estrela,
Que me guia por caminhos de abastança.
Ai mágoa
Que te foste pela noite dissipada
Em meus olhos poisa agora doce luz
Que encerrada por voz divina, soluça.
E ouvindo essa voz,
Em rastos de luz e aurora
Num abrir de esperança redentora
Parto todas as amarras que sentia
E em profunda distância que não meço
Tento vencer a névoa deste mundo incauto
Barreiras em que por vezes tropeço.
Com pedidos de oferta
Do céu e com fervor me abeiro
E é assim neste pendor que minha alma se liberta
Quando assim sou e sonho
Rasga-se- me o destino
A amizade floresce em todo o sentido
Desfaz-se a nuvem de ilusão,
Apalpo o dom de ter nascido.
Setúbal, 25 de Junho de 2001 (pacheco alves)
2008/01/09
RECTROSPECTIVA DO QUE TEMOS ESCRITO
ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E DEMAGOGISMO
NB: Por pensarmos que continua actual, republicamos aqui apenas parte do artigo de opinião por nós escrito em 17 de Junho de 2005, publicitado no nosso antigo blog com o título “A Administração Pública, o Demagogismo e a Reforma do Notariado” .
“Instalou-se na mente de muitos portugueses a ideia de que os funcionários públicos pouco ou nada fazem. Em parte verdadeira, esta conotação depreciativa, porque associada à ideia de parasitismo, contém, no entanto, em si alguma deturpação, e que não sendo de todo ideia ingénua, corre nos dias de hoje no subconsciente ou mesmo consciente colectivo do povo português, trazendo consigo consequências nefastas para os agentes públicos que sempre exerceram e continuam a pautar a sua acção pela seriedade, imparcialidade e rigor. Na nossa perspectiva, trata-se de pensamento demasiado excessivo, e que por ser em tudo generalizante é torpe e está viciado.”
Este ideário negativo, que vem do antigamente na vida, hoje realçado e prenhe de actualidade, consciente ou inconscientemente continua a ser inculcado na mente de muitos portugueses. E dizíamos também nós no referido artigo que, reconhecendo, embora, a muita incompetência e preguiça na nossa administração, e que não deixava de existir também no sector privado, havia também muitos e bons profissionais na nossa administração pública. Mas num tempo em que repetidamente e de modo obstinado os nossos políticos e os meios de comunicação de modo amplificado tanto falam do nosso défice, do desequilíbrio das nossas finanças públicas, não é por acaso que a ideia aflorativa do parasitismo inerente aos agentes da administração, surja nos tempos de hoje com maior relevância e acutilância. Consequência das problemáticas que a sociedade portuguesa actualmente atravessa, o dito parasitismo, em vez de ter sido solvido em tempo “de vacas gordas”, tenta agora resolver-se em tempos economicamente conturbados.
Embora, admitindo responsabilidades próprias que não deixam de caber a alguns dos agentes públicos, “o Estado, com as alternâncias políticas que nos últimos anos se tem verificado a nível da governação, terá concerteza responsabilidades primeiras e acrescidas. Exigindo-se um rumo para a administração que consubstanciasse uma dinâmica transformadora, o Estado não fez, em tempo útil, como deveria, as reformas que naturalmente se impunham. Pela falta de coordenação e de fiscalização dos serviços da administração, pelo absentismo e deficiente qualificação de muitos quadros dos nossos serviços, pelo laxismo da sua admissão, pela pouca eficácia e eficiência dos mesmos e pela falta de um sistema integrado de informatização só podemos responsabilizar, é claro, a governação do país.” Sendo essencial a formação e qualificação dos quadros da administração, realçamos, a título de exemplo, o facto de nunca se ter propiciado formação aos oficiais do registo, e de se terem feito admissões inadmissíveis.
Referindo-nos, ainda, ao dito ócio vivido no seio da administração, realçámos o desconforto e mesmo a angústia sentidos por parte de muitos dos nossos agentes, por terem a consciência de que o apregoado parasitismo é por vezes resultado de pura demagogia política populista que, incapaz de pensar e fazer atempadamente as reformas que sei impunham, “atira agora pedras, distraindo assim os cidadãos dos reais problemas da nossa administração. No fundo todo este jogo, com tanto fogo de artifício, apenas parece ter por finalidade, não uma ideia regeneradora ou de concertação, mas a de provocar o desmoronamento do edifício jurídico-administrativo do Estado e de esconder as reais responsabilidades que o Estado tem para com a administração e os funcionários. As “generosidades ” oferecidas aos seus agentes em algumas das governações, parecem agora dádivas envenenadas.
Se havia e continua a haver problemas relacionados com a deficiente ou pouca produtividade dos seus agentes, porque lhes aumentaram as férias de 22 para 23, 24, 25, 26, 27, 28, 29, etc. dias?
Isto não é demagogia?
29 de Outubro de 2006.
Resta perguntar também agora em Janeiro de 2008: Afinal, porque nos quiseram bafejar com dois dias de tolerânia de ponto no final do mês de Dezembro? Não bastaria a tolerância do dia 24?
J.C. Pacheco Alves
2008/01/05
EMIGREM
As palavras não são nossas, mas de um grande jornalista, Fernando Paulouro das Neves, também director do GRANDE Jornal do Fundão, e onde escrevem também outros jornalistas e escritores como Batista-Bastos e Arnaldo Saraiva. E valerá a pena, pensamos, citar aqui a sua crónica, publicitada no jornal de 3 de Janeiro, pela referência que se faz ao cosmético momento actual, ao fascismo travestido ou higiénico como refere Pacheco Pereira. Num momento em que era importante reforçar a capacidade crítica e construtiva dos cidadãos, a cidadania, constatamos, no entanto, que mesmo em sectores importantes da administração, viçosamente medram ervas daninhas. O universo policiesco está em crescimento.


Comentários Recentes
E o Fern