REGINOT - A actualidade, os Registos e o Notariado

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Archive for March, 2009

O jogo das pressões

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31-Mar-2009

O que se está a passar é desastroso para a Justiça portuguesa, que parece estar encostada às cordas. Não são admissíveis pressões sobre magistrados nem que a Justiça seja um instrumento e um escudo para atingir alguém.
O Sindicato dos Magistrados do Ministério Público denunciou “pressões insustentáveis” sobre os magistrados que estão a investigar o caso Freeport. Começou por fazê-lo na televisão, através do seu novo presidente, João Palma, eleito no sábado, que deixou no ar afirmações de enorme gravidade.

Como seria exigível, o sindicato vai concretizar as suas afirmações em audiência urgente pedida ao Presidente da República. Este simples acto indicia a delicadeza do ambiente que se vive na Justiça. As ‘pressões’, reais ou não, já não geríveis no Ministério Público, o que nos diz até que ponto são insustentáveis as relações internas.

O que se está a passar é desastroso para a Justiça portuguesa, que parece estar encostada às cordas. Um processo, um simples processo, em que se quer ir mais longe ou, de outro modo, que não terá tido um percurso feliz nos primeiros tempos, está a deixar no ar um cheiro nauseabundo. Não são admissíveis pressões sobre magistrados nem que a Justiça seja um instrumento e um escudo para atingir alguém. Uma coisa parece ser hoje a consequência da outra. Quando chegamos a um ponto destes significa que o regime está putrefacto. É fácil reduzir tudo o que se tem passado a excessos mediáticos. A questão, porém, não está aí, mas no coração de um sistema político já muito próximo da falência.

EDUARDO DÂMASO | CORREIO DA MANHÃ | 31.03.2009

Ter ou não ter vergonha e o comentário de um leitor

 NB:  Talvez não mereça tão elevados encómios. Pressinto no entanto que, alguém possa ficar  regozijado  pela “vergonha” que por vez sentimos. Talvez , não sei, seja o efeito desejado, querido, e como tal conscientemente desencadeado. Está na berra, penso,  desacreditar não apenas os profissionais do registo mas destruir o próprio instituto do registo. Satisfaz-nos, no entanto,  saber que há   alguém que nos dá força para podermos continuar.
Setúbal, 30 de Março
J.C.Pacheco Alves
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- Meu Caro Pacheco Alves:
O meu Amigo não tem de que sentir vergonha.
Foi sempre um profissional honesto, trabalhador e estudioso, preocupado em saber fazer e fazer bem.
Testemunhei isso ao longo dos anos em que, como notário, que tive a honra de ter sido e como advogado que me orgulho de ser há quase 36 anos,levo de convívio consigo, tanto no plano profissional, como no pessoal.E só lamento que, presentemente, a distância a que vivemos um do outro, aumentada, no que me diz respeito, pelo peso da idade que já vou sentindo, me impeça de usufruir, com a frequência que desejaria, a sua sensibilidade,a sua cultura e a sua honestidade e frontalidade beirãs.
Compreendo o seu desencanto e o de tantos dos seus Colegas e de muitos dos Oficiais, bem como o desabafo do Colega a que se refere, seja ele quem for, pois todos os Conservadores, hoje aposentados, que leccionaram nos cursos de ingresso para conservadores e notários em Coimbra, com quem tive a honra de privar e trabalhar, eram (e são) grandes juristas e , sobretudo, gente de grande carácter e de uma infinita honestidade intelectual.
Quem se deve envergonhar, meu prezado Amigo, são os autores das sucessivas leis que, a pretexto de uma simplificação de procedimentos -cuja necessidade ninguém de boa-fé questionaria - estão a descaracterizar a instituição registral e a criar um “híbrido” no domínio quer da documentação, quer do registo dos actos e negócios jurídicos, que não pode conduzir a bons resultados, mas sim - e oxalá me engane - à destruição da segurança jurídica.
Mas porque não haveria de ser assim, na área dos registos e do notariado e em tantas, tantas outras, se, afinal, vivemos num país de “trapalhadas”?
Um cordial abraço do seu amigo

Castilho e Cunha

           
          “Cada vez mais sinto vergonha de dizer que fui conservador”, referiu um dos nossos colegas aposentados no encontro de 28 de Fevereiro na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Trata-se de sentimento que subscrevo integralmente, por isso refiro-o com muita ângustia. Aliás, pelo que me é dado observar, trata-se de sensação que perpassa qualquer conservador que, profissionalmente, se tenha entregue de alma e coração á função que abraçou.

            Sim, hoje eu também tenho vergonha. Fruto das circunstâncias em que profissionalmente se vive, a hipótese legal subiste hoje, conscientemente ambígua, porque implantada sobre areia movediça, para dar lugar a que da letra e do próprio espírito sejam retiradas amplas e duvidosas interpretações. Tenho por isso cada vez mais vergonha, repito vergonha, consequência da confusão que se apoderou do meu espírito pelo medo que pressinto e pelo receio da desonra.

             Num tempo em que os portugueses cada vez mais opinam sobre aquilo que não sabem, alegando mesmo a inconstitucionalidade das leis que lhes possam ser referidas, é natural que qualquer jurista minimamente sério, um conservador, se encolha face a tanta sapiência por parte de muitos cidadãos utentes, que por aí andam e vêm questionando muitos dos balcões dos nossos serviços externos, ou interpelando mesmo, directamente, os que nos são superiores hierarquicamente, sem que subsista muitas vezes razão para tal.

           É caso para se dizer “perdeu-se a vergonha”, ou melhor “ é uma pouca-vergonha” … e eu, pesaroso, … cada vez mais sinto vergonha.

    Setúbal, 24 de Março de 2009.

  J.C. Pacheco Alves

        

A VENDA: quem foi que se vendeu à regência?

          
             A VENDA: quem foi que se vendeu à regência? Foi o STRN e ASOR. Venderam-se em troca da formação (que aliás nem pagam a muitos dos formadores) e agora continuam a vender-se em troca da participação na CAAD. O que é isto? É o local onde os trabalhadores da administração pública e os do IRN incluídos vão ser despedidos. É uma espécie de matadouro mas com toda a higiene garantida. Mas não há problema pois o STRN e ASOR estão lá para garantir que o despedimento será democraticamente feito sob a asa protectora do sindicato. Deveriam ter vergonha por continuarem a usar as palavras ” sindicato” e “trabalhadores”. Deveriam devolver todo o dinheiro que receberam dos trabalhadores desde que se constituíram com sindicato e associação. Se defendem os interesses dos seus órgãos colectivos e amizades e familiares, usem os recursos próprios. Abaixo a hipocrisia e a falta de seriedade. Se querem apunhalar os trabalhadores do IRN não o façam pelas costas.

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NB: Estas curtas palavras, escritas por leitor anónimo, são demasiado importantes para serem ocultadas em simples comentário do Blog Reginot. Daí o relevo que lhe damos aqui de primeiro plano. Sabemos que não é fácil, face aos tempos que correm, dar a cara pelas ideias que pensamos e defendemos, quando elas põem em causa algum do status quo reinante. Aceitamos por isso o anonimato quando aquilo que se escreve ou pensa, para além de não constituir qualquer delito, perpassa o sentir colectivo dos profissionais, sendo a anonímia apenas consequência do medo que paira nos serviços da administração pública, nomeadamente nos serviços dos registos. Esperemos que os oficiais e conservadores comecem a acordar do já longo sono hibernante. A supressão ou a retirada da sensibilidade própria, faz-se em termos cirúrgicos através da anestesia, mas mais grave que esta é a anestesia moral porque esta impõem-nos a perda da ressonância afectiva às noções de bem e de mal. Porque consciente e imposto premeditadamente, é preciso, urge acordar deste anestesiante adormecimento, porque a nossa vida, inclusive profissional, impõe-nos atitude conscientemente reflexiva como é exigível pela cidadania e pelo nosso profissionalismo.

     Com sentido de grande responsabilidade, contra esta anestesia, reagiram há bem pouco tempo em Coimbra oficiais e conservadores em encontro bastante participado. Ficou a ideia de que com as actuais estruturas associativas os profissionais do registo não vão a lado nenhum. Foi um bom começo. Sabemos também que, talvez pela pressão deste espontâneo encontro, a mesa da Assembleia Geral da ASCR convocou os seus associados para uma assembleia-geral extraordinária a realizar também em Coimbra no dia 28 de Março. Face às anomalias, que tiveram o seu inicio logo após a eleição dos seus órgãos, perguntamos: como foi possível manter uma estrutura tanto tempo e que tão mal fez aos seus conservadores? Esperamos, assim, que desta reunião saiam decisões certas, propugnando, nomeadamente, pela extinção jurídica da própria ASCR, porque tal como existe - a letargia em que subsiste – apenas envergonha a classe dos conservadores.

     Unamo-nos em torno de uma nova e ampla estrutura associativa que una conservadores e oficiais. Lutemos por uma boa ideia … uma ideia forte e independente, reflexiva, que ponha em causa o modus vivendi das actuais associações sindicais.

     Setúbal, 22 de Março de 2009.

      J. C. Pacheco Alves

A Palavra de Bertold Brecht

Lembra-te que um dia o azar pode bater à tua porta, aliás como começa a acontecer com muitos portugueses.

            Um dia vieram e levaram o meu vizinho que era judeu.
            Como não sou judeu não me incomodei.

           No dia seguinte, vieram e levaram
           Outro vizinho que era comunista.
           Como não sou comunista, não me incomodei.

           No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico.
           Como não sou católico, não me incomodei.

            No quarto dia, vieram e me levaram;
            Já não havia mais ninguém para reclamar

           Bertold Brecht

Partilhas litigiosas nas mãos dos notários?

Partilhas litigiosas nas mãos dos notários?

Março 17, 2009 ·

Portugal é surpreendente. Aniquila a atividade essencial dos notários - ao universalizar os documentos privados - e fomenta a desestruturação das instituições jurídicas, deslocando atividades tipicamente jurisdicionais para instâncias extra-judiciais.

Vejam a nota abaixo, assinada pelo jornalista Nelson Morais.

Manter a leitura

POR UMA PLATAFORMA ASSOCIATIVA UNITÁRIA

          
              Nos tempos que correm, cada vez mais se justifica uma estrutura unitária associativa que congregue, na sua essência,  oficiais e conservadores. Face ao caminho fracturante, imposto por acutilante radicalismo legislativo na área dos registos, a resposta só pode passar pela criação de uma outra dinâmica associativa que una os profissionais dos registos. Face, à não regeneração, mas à destruição das estruturas orgânicas registrais, e à degradação do próprio instituto civil do registo e à consequente angústia e desmotivação dos profissionais que trabalham nesta  área não se pode responder com um modo de ser corporativista. As “reformas” em curso, para além de conterem um forte pendor reducionista e economicista, potenciam o fraccionismo ou divisionismo entre conservadores e funcionários face às competências originárias destes. E porque beneficiadoras de meros interesses imediatistas e apregoadoras de mecanismos ditos simplificadores, acabarão por enfraquecer a própria segurança jurídica.
           
  Manter o marasmo corporativista actual será, na nossa perspectiva, o pior caminho. Nada fazer, …omitindo consciente comportamento reactivo, permitindo que os profissionais dos registos sejam mesmo atingidos na sua própria dignidade, pensando que assim beneficiarão da “bondade” dos nossos governantes, será rumo que não poderá ser mantido. 
           
  E há muito tempo que temos vindo alertando os profissionais do registo para o perigo do caminho trilhado pelas actuais estruturas sindicais, algumas mesmo actuando sem as distancias que são exigiveis face à tutela. Como não faz hoje qualquer sentido manter em estado de letargia a ASCR, porque o seu modo de estar hibernativo, apenas tem servido para comprometer os profissionais do registo, ou, a de enganosamente, continuar a manter a chama de que será possível dar vida a uma estrutura elitista constituída por algumas dezenas de conservadores.
             
Não criemos ilusões … Os tempos são outros. Num tempo em que o próprio estatuto dos conservadores está sendo posto em causa, funções cada vez mais próximas de um qualquer chefe de balcão, e o mesmo se passando quanto ao estatuto dos próprios oficiais, face à perca da competência territorial e a criação de um serviço global do tamanho de Portugal, não fará nunca nenhum sentido apoiar o divisionismo em curso. Sabemos que há por aí gente sem ilustração, com conhecimentos registrais meramente empíricos, de consciência pequeno - burguesa,  e que numa fase legiferante aguda,  estará, mesmo assim,   desejosa em “usurpar”  as funções que sempre pertenceram a juristas. Estamos certos, no entanto, que na sua maioria os oficiais e conservadores estarão muito mais próximos do que afastados, atendendo ao superior interesse que exige a preservação do instituto registral do direito civil.  

              E terminamos como começamos. Face à gravidade dos problemas, só uma outra dinâmica associativa, forte e independente, congregadora de oficiais e conservadores, poderá, para além de revelar ou esclarecer os problemas registrais com que o instituto do direito civil se debate, melhor agir em defesa dos seus profissionais.  

              Setúbal, 15 de Março de 2009.

              J.C. Pacheco Alves

Decidir sobre a existência dos notários

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13-Mar-2009
Sem deixar de elogiar a privatização dos notários, a bastonária da respectiva ordem, Carla Cristina Soares, acusa este Governo de dar sinais contraditórios, de os afastar de programas como o Simplex, de “dar uma imagem negativa” dos seus representantes. Posto isto, surge a pergunta: está em causa o futuro desta profissão, a sua viabilidade financeira? Aqui, Carla Cristina Soares diz que vão “ser os portugueses a decidir se é importante a existência” dos notários.

Vida Económica - Que balanço é que fazem da privatização do notariado? São várias as queixas que têm vindo a público. O que destacaria como o de mais positivo e de mais negativo relativamente a esta reforma?
Carla Cristina Soares - A privatização do notariado recolocou o nosso sistema jurídico na tradição quer europeia quer portuguesa. E o nosso sistema só assim ganhou maior coerência: o notário era um profissional liberal, em Portugal, realidade que foi interrompida com o Estado Novo para voltar a ser retomada em 2005, com a liberalização do notariado. De notar que, embora exerça como profissional liberal, o notário desempenha uma função pública. O que se reflecte nos seus deveres para com a comunidade e para com o Estado.
Os serviços notariais pecavam antes da liberalização por vários defeitos: uma oferta muito inferior à procura - desde os anos 60 que o número de cartórios não aumentava - que provocava falta de celeridade. A isto, devemos ainda acrescentar o desinvestimento, um total desinvestimento. O Estado deixou de apostar na melhoria material dos cartórios, Posto isto, vou falar dos aspectos positivos e negativos desta reforma. Em relação aos primeiros, devo dizer que não há memória de uma reforma tão bem sucedida na área da Justiça. No espaço de, apenas, um ano, acabou a morosidade na prestação do serviço sem diminuir a segurança dos portugueses e sem que o custo dos mesmos serviços aumentasse. Tornou-se, assim, visível a melhoria da qualidade no atendimento, a proximidade dos utentes, a simplificação da sua vida na obtenção dos documentos, que hoje o notário recolhe pelo utente.
No que toca à parte mais negativa, devo recuar um pouco no tempo para se perceber melhor o que está em causa. Comecemos pela reforma que foi encetada pelo PSD, a qual foi abandonada e, posteriormente, combatida pelo PS escassos meses depois de os notários tomarem posse como profissionais liberais. O que aconteceu? A antiga legislação ainda em vigor não se adequou às novas realidades da profissão, afastando, assim, os notários da participação, por exemplo, do programa Simplex. A máquina potentíssima de propaganda do Estado apostou em utilizar e difundir uma imagem negativa dos notários, inclusive nos próprios textos legais.

VE - Os notários reclamam por parte do Estado uma indemnização de mais de sete milhões de euros pelo pagamento de serviços a que não correspondeu nenhuma contrapartida. O Ministério da Justiça já reagiu ou vão, mesmo, para a frente com a acção judicial?
CCS - Em 2008, entraram 241 pedidos de devolução da taxa ilegalmente paga ao Ministério da Justiça - estes somam um total de mais de 19 milhões de euros -, em 2009, entraram mais 90 pedidos num total de mais de sete milhões de euros. Ao todo, estamos a falar de 331 pedidos num valor global de mais de 26 milhões de euros.
A única reacção do Ministério da justiça é andar a declarar-se incompetente através do Instituto de Gestão Financeira e de Infra-Estruturas da justiça, IP e da Secretaria de Estado. E a devolver, em mão, os caixotes dos nossos pedidos aos advogados para que estes voltem a dar entrada dos mesmos pedidos. Mas nós, com muita paciência, não desistimos…

VE - Este problema a somar a outros poderá ditar a falência do notariado privado e, em última análise, o fim desta profissão?
CCS - As profissões existem porque são necessárias à comunidade. Os notários surgiram, porque era necessário que os contratos fossem seguros. Ou seja, que fosse certo que, num dado momento, aquelas pessoas quiseram aquele contrato e que isso se pudesse provar, sem dúvidas, no futuro. Pela mesma razão nasceram os registos ainda que estes se destinem a publicitar os contratos perante a comunidade, enquanto o notário protege os interesses das partes que celebram o contrato na sua presença.
Não há registo credível sem títulos credíveis: notários e conservadores são ambos peças necessárias para a segurança na contratação, os seus papéis são diferentes e complementares. Mas vão ser os portugueses a decidirem se é importante que os notários existam ou se é preferível celebrar um contrato perante um funcionário com a quarta classe ou perante uma entidade que não tem obrigação de dar acesso ao seu arquivo. E talvez também seja importante ouvir a opinião dos jornalistas, porque, a continuar assim, dentro de pouco tempo não haverá mais “Freeports”…
E para finalizar não quero deixar de referir que algumas explicações começam a surgir ao fundo do túnel: altos responsáveis já defendem publicamente a privatização das conservatórias. Por isso, é preciso primeiro desviar o trabalho dos notários para que os felizardos que as adquiram no futuro tenham muito lucro…

“Privatização não põe em causa fé jurídica”

Será que a privatização põe em causa a fé jurídica dos actos celebrados pelos notários? A esta pergunta, a bastonária da Ordem dos Notários, Caria Cristina Soares, responde com um rotundo não. “Não de todo”, destaca. E acrescenta: “Os notários continuam a exercer uma função pública, a fiscalizar a legalidade dos actos que formalizam”. Carla Cristina Soares explica que os notários, embora em gestão privada, “continuam a ser disciplinarmente responsáveis perante a Ordem dos Notários e o Ministro da Justiça”. Os cartórios, afirma ainda a bastonária, “não são um qualquer escritório, continuam a ser repartições públicas”. E Caria Cristina Soares continua na defesa da sua ‘dama’ ao destacar que o notário é um “agente da administração da justiça, imparcial, que protege todas as partes envolvidas e as aconselha de acordo com os seus interesses no caso concreto” em que estão envolvidos. E o que pensa esta responsável sobre a vontade modernizadora deste Executivo? Sobre as reformas que visam simplificar, no seu geral, os actos administrativos? Aqui, Carla Cristina Soares diz que a “simplificação é positiva quando não põe em causa a segurança jurídica e quando, efectivamente, funciona”. Para funcionarem, diz ainda, reformas como o Simplex têm que recolher o contributo de todos e isso não aconteceu com os notários”. E a bastonária justifica estas posições, desde logo a ausência de segurança jurídica, com o facto dos meios informáticos não garantirem este valor. Carla Cristina Soares acusa-os de não serem globais e de não reutilizarem os dados introduzidos. “Criaram-se sistemas parciais e o utilizador digita e volta a digitar os mesmos dados cada vez que acede ao serviço”, destaca. E acrescenta: “Essa é uma das muitas críticas que é feita ao Simplex num recente estudo publicado pela OCDE”. Mas, as críticas não ficam por aqui. Referindo-se ainda a este estudo, Carla Cristina Soares fala de um projecto que não envolve “as autarquias e as regiões autónomas” e em relação ao qual não foi feita uma análise de custo/resultado. Posso adiantar, diz, “que os programas informáticos só na área dos registos custaram já mais de nove milhões de euros fora os gastos em publicidade, pessoal e instalações”.

Cidadãos satisfeitos com a melhoria do serviço

Como é que as empresas, os cidadãos encaram a privatização dos notários? Carla Cristina Soares diz que estes “sentiram de imediato a melhoria do serviço”. Segundo esta responsável, o que eles não entendem “é esta política de descontinuidade entre os sucessivos Governos, ou seja, este desgoverno”. E as palavras duras da bastonária continuam com Carla Cristina Soares a afirmar que a “sociedade portuguesa e os juristas, em particular, percebem a atitude vergonhosa que o actual Executivo tem tido para com os notários”, No entender da bastonária dos Notários “é muito mais fácil, cora muito dinheiro, investir em publicidade enganosa do que fazer passar a ideia de que os negócios se querem seguros. E que isto é compatível com a simplificação e celeridade”.

VIDA ECONÓMICA | 13.03.2009

MÁRIO CRESPO ENTREVISTA MEDINA CARREIRA

O DÉCIMO SONETO DO PORTUGUÊS ERRANTE

 


        
Na sua essência, o canto de Manuel Alegre contém em si, acto, grito, apóstrofe, desafio, denúncia, vida jogada como arma.  O seu grito, a portugalidade e   musicalidade  do seu canto continua actual. Um país onde   as manhãs, que deveriam ser   claras e onde as ondas varrem as estruturas do tempo, deixa de ter futuro. Como afirma o poeta, “apetece perguntar para onde vamos”.

 

             Contra a usura e o juro contra a renda

             Contra um tempo de ter mais do que ser

             Contra a ordem fundada em compra e venda

             Contra a vida que mói até doer

 

             Contra a força que oprime – aí eu canto

             E onde amor se procura e não se encontra

             Onde a vida se mede a tanto e tanto

             Onde a mentira impera – aí sou contra

l

             E por isso incomodo e sou mal visto.

             Que se o tempo é de grades eu resisto

             E quando alguns se calam não me calo

 

             Eu sou o renitente o inconformado.

             Por isso me deitaram mau olhado

             E por isso persisto e canto e falo.

 

 

             M. Alegre

 

 

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