2007/10/28

OS NOVOS CONDENADOS E AS NOVAS LIDERANÇAS

                1 - Não existem apenas os condenados de Pinheiro da Cruz, de Alcoentre, de Tires ou de uma outra qualquer prisão portuguesa que, espiando os “pecados” cometidos, apenas esperam pelo dia da sua libertação. Hoje há outros e novos “condenados”. Para além dos que vivem no limiar da pobreza e que representam já um quarto da população portuguesa, como recentemente noticiado foi, há agora também uma nova classe de sentenciados – os funcionários públicos, nomeadamente os que laboram no área dos registos. E são os novos condenados, porque, desprotegidamente, enfrentam os cidadãos utentes com tecnologias que se manifestam diariamente inoperacionais, servidas algumas por programas informáticos mal adaptados à realidade e que devem ter custado milhões de euros ao erário público. A exigência burocratizante de procedimentos informáticos, revela quão desadequadas são algumas dessas aplicações informáticas. No entanto, para quem se limitou a receber estas tecnologias e não conheceu outros modus operandi, para quem nada mais conheceu, o que “veio à rede” é bom.
                O SIRP, sistema informático implantado nos serviços do registo predial, que melhor conhecemos, mas existem outros, constituiu exemplo claro de inoperacionalidade diária e de inadequação à realidade jurídico registral. Pelo peso burocratizante que impõe, o SIRP constituiu hoje uma autêntica ditadura informática.  Em vez constituir uma mais valia para serviços do registo predial, é mais um encargo, uma canga com reflexos negativos no desenvolvimento da actividade profissional e na consequente degradação da prestação de serviço. E é o peso de tudo isto, servido por uma propaganda falaciosa, enganadora, que cria a nova classe de condenados, os que se sentem aprisionados por aplicações informáticas desfasadas da realidade. 
               Depois dos condenados, vem os outros. Os que todos conhecem. Os do “ bom, bom ”! … Os espertalhões e que se vão desenrascando, ou melhor safando das agruras profissionais. Mas sobre estes caberá a cada um tirar conclusões, pois a arte de escrever, além de ser complexa, é também hoje difícil, para quem não tem o hábito de se esconder por detrás, como dizem lá na Beira, de uma qualquer moiteira ou carquejeira.

              2 - E fala-se e escreve-se, fazem-se mesmo acções de formação, sobre as novas lideranças para os nossos serviços, mas era bom que os especialistas na matéria não se esquecessem  de ensinar, que o carácter de uma pessoa, a sua integridade pessoal e o agir por princípios e valores constituem componentes fundamentais para que alguém possa exercer a liderança. E não é fácil, nos dias que correm, impor uma liderança com carácter, pois num mundo cada vez menos orientado por princípios e valores, num mundo em que se corre por soluções fáceis para os problemas concretos da vida, torna-se cada vez mais difícil, nos serviços e organismos do Estado, os seus responsáveis imporem lideranças eficazes. Os problemas cada vez mais complexos, a grande pressão, que se coloca sobre os serviços da administração, tornam mais difícil o exercício da liderança.
              Apesar de alguns progressos, a nossa administração, em muitos aspectos, continua virada para trás, porque arreigada ainda a tiques de tipo fascizante e centralizadora, continua subordinada a um poder hierárquico de “orelhas moucas”, pouco dialogante com quem diariamente está em contacto com os problemas. E o espaço que hoje é deixado aos que deveriam liderar, aos que deveriam ser o rosto visível dos nossos serviços, continua demasiado exíguo.
             Nestas circunstâncias e com as limitações estabelecidas é hoje difícil exercer uma liderança com carácter. Como a pressão para o sucesso é enorme, bafejados outros pelo oportunismo, parece que mais vale hoje «perder o carácter» do que «perder a face». E é esta inimputabilidade que o nosso sistema organizacional protege.
             Assim,  não há liderança que nos valha! ...

            
Setúbal, 28 de Outubro de 2007.
            J.C. Pacheco Alves


 

Escrito por J.C.Pacheco Alves em 10:56:22 | Link permanente | Comments (2) |
Comentário
1 - Gostaria de dizer alguma coisa sobre o artigo, mas as coisas são tão autênticas, que é melhor omitir qualquer comentário. (Comentar)

Escrito por: Anónimo em 2007/11/01 - 15:55:22
2 - Eu tenho andado um pouco ausente, e com pouca disponibilidade mental para a escrita... Fases da vida...
Mas realmente está na altura de lançar uma grande campanha com o lema "LIDER PRECISA-SE".
Cada vez se veem mais nos classificados: precisa-se de Director, Gestor, Administrador e por aí fora todo um leque de cargos e profissões terminadas em ... dor.
E é uma dor de alma, porque o que precisamos é de Líderes.
Gente que mova multidões, que mova montanhas, que trabalhe em prole dos outros, que oriente, que harmonise, que equilibre.
Mas os lideres precisam-se em todos os sítios.
Em cada um dos locais de trabalho é preciso gente dinâmica que organize, crie equipes que funcionem e onde as pessoas se sintam felizes e produtivas.
Isto da felicidade e da produtividade é uma bola de neve e é como se fossem duas irmãs gémeas.
Só se produz bem, se houver uma bom ambiente de trabalho, uma equipe a funcionar (com todas as suas diversidades) e com um líder.
E a falta de lideres nota-se cada vez mais.
Cada vez se nota mais falta de coordenação, de respeito, de saber, de valores.
Será que ainda alguém acredita que é com vinagre que se apanham moscas?
Estamos fartos (falo por mim e nao só) de ordens sobre ordens descoordenadas, desgarradas da realidade, contraditórias.
Estamos fartos de ter de trabalhar com meios caríssimos mas que não funcionam - veja-se o SIRP e as PENHORAS ELECTRÓNICAS.
O trabalho não assusta, assusta é a descoordenação, as ordens e mais ordens, os esforços enormes em fazer "o impossível para por a funcionar o que foi feito para cumprir contrato (não necessáriamente para funcionar)".
Um Líder saberia distiguir o que presta do que o que não presta.
Um Líder dá uma ordem e exige que se cumpra, porque também a sabe cumprir.
Um Líder promove o esforço, porque também se esforça.
Um Líder exige competência, porque também é competente.
Um Líder promove um bom ambiente, porque um líder tem coração.
Um Líder é verdadeiro, não se esconde atrás de subterfúgios.
Um Líder é frontal porque vive com verdade.
Um Líder é o primeiro a avançar, a dar o corpo ao manifesto.
Um Líder é um Pai, um amigo, um chefe, um porta-voz.
Um Líder é o primeiro a estudar a nova lição e a partilhar o seu saber com os outros.
Um Líder não é um pau mandado.
Um Líder pensa, reflete e sabe o que quer e o que fazer nas suas funções.
Um Líder tem valores morais e são eles que orientam a sua forma de agir.
LÍDER - PRECISA-SE em troca oferecem-se umas boas dezenas de individuos em cargos de chefia que pensam que sabem mandar porque apenas lhe meteram algum poder na mão.

Natacha
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Escrito por: Anónimo em 2007/11/24 - 00:09:55
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