«INTELECTUAIS PRECISAM-SE»
NB: Sobre o papel dos intelectuais, e sobre a atitude contorversa de muitos, publicamos aqui o artigo de Inês Pedrosa, que poderá ser lido no Expresso desta semana.
Que define desde o princípio um intelectual? A coragem de dizer 'não'.
Eduardo Prado Coelho, in O Papel do Intelectual Hoje, edição Universidade Federal de Minas Gerais, 2004
O ALINHAMENTO de alguns intelectuais importantes com ditaduras ferozes - Sartre defendendo o estalinismo, Heidegger o nazismo, ou Michel Foucault o Irão de Khomeini, só para referir três exemplos de peso - conduziu a Europa a uma desconfiança perigosa em relação à intervenção pública de filósofos, escritores e artistas. Esta desvalorização da palavra dos criadores tem resultados tristemente visíveis na própria inconsistência do conceito de "Europa". Para o português comum, "Europa" significa, nos períodos de sorte, um pacote de subsídios, e, no resto do tempo, um exército de contabilistas que se reúne num qualquer castelo de Bruxelas ou de Berlim para disparar contra a sua bolsa. "Europa" é apenas uma alcunha poética para a expressão "défice máximo de três por cento". E este número é apresentado como uma Verdade Revelada, uma Santíssima Trindade sem remissão dos pecados nem Virgens intercessoras - a pura e dura religião da aritmética. A moldura desta obra minimalista de anti-arte - um número rodeado de burocratas - é, mais do que barroca, rococó: um composto de "Estratégias", "Tratados" e "Planos" redigidos em letra maiúscula, com muitas campanhas contra a "Discriminação" e a favor da "Igualdade de Oportunidades". Na vida e no país real, as mulheres espancadas continuam a ter de fugir de casa para se acoitarem nuns "abrigos" enquanto os espancadores ficam com a casa da família só para eles, o processo Casa Pia fenece enquanto o Código do Processo Penal é alterado a favor de pedófilos e violadores, os deficientes não têm acessibilidades e vêem os seus impostos agravados, a classe média enforca-se em créditos enquanto os banqueiros e os seus filhos prosperam animadamente, metem-se os direitos humanos na gaveta para receber Putin, o gás natural e as sobras do Hermitage com pompa e fanfarras. E a sensação geral que se insinua é a de que não há alternativa.
Só no zapping dos blogues se encontra, no meio dos muitos quilos de lixo inumano (porque anónimo, desprovido da responsabilidade de um nome) algum pensamento crítico contínuo - mas tudo se perde na descontinuidade do fragmento. Os sistemas político e mediático unem-se, sorrateiramente, para afastar as vozes exteriores - esses chatos dos intelectuais. E os chatos, por sua vez, resguardam-se nas suas bibliotecas, excluindo da sua consideração os poucos que se esforçam por intervir na sociedade. Quem escreve regularmente para os jornais ou - pecado maior - aparece na televisão, é definido como um vendido à sociedade do espectáculo, a não ser que venha com uma caução de um outro país mais erudito. A televisão, aliás, só recruta comentadores políticos que sejam, também eles, políticos. É a entropia total.
Se Espanha cresceu extraordinariamente nos últimos trinta anos, foi também por causa dos seus intelectuais. Um dos melhores, o filósofo Fernando Savater, acaba de impulsionar o nascimento de um partido político novo. Farto de ser encostado à direita católica por criticar a tibieza de Zapatero no combate ao terrorismo e na gestão dos nacionalismos, Savater propôs a criação de uma nova área política que aliasse os direitos cívicos defendidos pelo PSOE (casamento dos homossexuais, interrupção da gravidez, eutanásia) e a unidade nacional defendida pelo PP. Mas não assumiu qualquer cargo político - permanecerá no lugar que tem sido sempre o seu, contra ventos, marés e ameaças da ETA: o de propulsionador do avanço da Razão contra os embates dos dogmatismos sectários. Mario Vargas Llosa - outro intelectual implicado nas grandes questões da política contemporânea - apadrinhou o nascimento deste novo partido, como aliás vários outros escritores de diversas nacionalidades. Mas, no país de Zapatero, filósofos, historiadores e escritores ocupam os espaços de opinião de jornais e televisões, e essa é uma diferença essencial. Não porque os intelectuais não se enganem - mas porque a mecânica do seu raciocínio de seres habituados a pensar, agiliza e desenvolve, mesmo que por antítese, o raciocínio dos outros.
O carácter mole da ditadura portuguesa anestesiou-nos. Nunca cultivámos o hábito arriscado de pensar. Temos medo do erro, da diferença, da vertigem, da troça. Eduardo Lourenço e José Gil são, na prática, estrangeirados - ganharam no exterior (não por acaso, em França) a força crítica e a credibilidade. Aqui neste Portugalinho, se alguém tiver uma ideia, é melhor fazer com ela um poema. Ninguém percebe e toda a gente gosta muito.
Inês Pedrosa
Escrito por
J.C.Pacheco Alves em
00:30:05 |
Link permanente | |