A RETÓRICA DOS SACRIFÍCIOS E A CRUEL REALIDADE
A RETÓRICA sacrificial, por via da exigência do défice, tornou os portugueses – a maioria dos que trabalham e comem o pão que o diabo amassou – reféns da desesperança. Não faltam exemplos de sísifos de carne e osso vergados ao peso das dificuldades, cansados de apertar o cinto, subjugado pelas condições deletérias da conjuntura que lhes apontam como fatal condenação dos tempos. Tudo isso entrou nas rotinas da macropolítica, com os ditames de Bruxelas apontados como cutelo, não restando ao cidadão comum, cada vez mais desorientado nos labirintos Kafkianos da política imediata, outra reacção senão o cepticismo, a descrença, a indiferença cívica, às vezes a irracionalidade do protesto. É isso que os políticos, se frequentassem os cafés e as ruas, encontrariam decerto à hora da bica ou nas fugas mais prolongadas ao tédio quotidiano. Essa realidade tornou também, é certo, o cidadão mais sensível às injustiças, quando elas vêm de cima, dos que alçados a lugares de topo navegam em estranhas prosperidades, ou daqueles que, resguardados pelos excessos do poder económico, são cidadão mais iguais do que os outros. No primeiro caso, ainda recentemente os jornais denunciavam que o Ministério da Justiça adquirira veículos de super luxo para chefes, onde não faltava sequer um automóvel-limusine ! No segundo, a denúncia partiu do secretário de Estado João Amaral Tomaz que veio dizer que “ em Portugal a fraude fiscal tem características diferentes da de outros países, pois as grandes empresas estão envolvidas em fraudes”. O secretário de Estado dos Assuntos Fiscais sugeriu mesmo que se comparasse a lista das 1000 maiores empresas que têm sido associadas à Operação Furacão, pela comunicação social. Quer dizer, vale tudo. Impunememente. Os portugueses que pagam impostos – e tão pesados – ficam à espera que o Governo actue e não se fique pela retórica.
Fernando Paulouro Neves
“Jornal do Fundão”

