2008/04/28

POEMA DUM FUNCIONÁRIO CANSADO


NB: Como muitos outros poetas da sua geração, a poética de António Ramos Rosa responde às exigências de denúncia e de resistência, que se colocaram aos intelectuais durante a noite longa da ditadura, mas que, pela sua actualidade,  não deixa de se colocar hodiernamente, num mundo que aparenta ser cada vez mais opressivo.  

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só

com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tendo escondê-la envergonhado
o chefe apanhou -me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionários cansado dum dia exemplar
Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo uma noite só cumpprida
num quarto só

António Rosa, in Antologia Poética, Ed. Circulo de Leitores, 2001.

Escrito por J.C.Pacheco Alves em 23:50:19 | Link permanente | Comments (1) |
Comentário
1 - 1º de Maio

" As pessoas não se perturbam com
as coisas, mas com a forma como
vêem as coisas” ...................................

todos os sonhos de um amanhã
passavam de boca em boca, escondidos segredos, erguendo bandeiras
entre corridas loucas pela cidade habitando esse dia de luz nascente
donde brotaria a liberdade

todos os sonhos, todos os sonhos de um amanhã
caminhavam lado a lado com o sabor das ideias sem margens
feitas de palavras operárias inocentes e bravias como as imagens

todos os sonhos, todos os sonhos, todos os sonhos de hoje
esperam pela memória dos primeiros de maio que iluminavam a eternidade
ilusão sem manifesto
vazio sem esperança
pergunta sem resposta

onde mora a fraternidade?

Caro J.Pacheco Alves,
Não resisto a partilhar este 'pequeno' texto - que recebi por email, hoje 1º de Maio - que foi escrito por um grande amigo meu (C.Grade).

A.Costa


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Escrito por: Anónimo em 2008/05/01 - 14:59:30
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