Transcrevemos aqui o artigo de opinião do Juiz Desembargador Dr. Eurico Reis, a propósito das recentes declarações do Bastonário da Ordem dos Advogados e da resposta dada pela Associação Sindical dos Juízes Portugueses.
A propósito de demagogismo e na esteira do Excelentíssimo Juiz Desembargador, diria eu também que não são apenas os Juízes que se vêm constrangidos relativamewnte à profissão que escolheram. Neste ponto teremos de ser mais abrangentes. O desencanto afecta hoje todos os trabalhadores portugueses, nomeadamente todos os profissionais da administração pública, os que sempre exerceram e continuam exercem a função com responsabilidade e seriedade. E não é apenas o Senhor Doutor Juiz, Eurico Reis, que já não se sente bem relativamente à profissão que escolheu e, segundo diz, por vocação. Diria também que muitos conservadores e oficiais do registo se sentem hoje defraudados, começando a sentir-se a mais na profissão que também escolheram. E não, porque não desejem as reformas, aliás elas são inevitáveis, mas porque, nos últimos anos, no ar começou a tresandar onda demagógica e populista que apenas tem servido para denegrir a imagem dos serviços públicos, nomeadamente o sector dos registos e do notariado. Não será, assim, mais fácil impor “reformas”? E, tal como refere o Senhor Juiz, também nós começamos a ter vergonha da profissão que exercemos e que decidimos um dia abraçar por vocação. Quem está por dentro, ou tem acompanhado o que se tem passado no sector dos registos e do notariado e a privatização deste, concerteza saberá sintonizar o que sentimos. __________________________________________________
«LINHAS TORTAS»
«Eu escolhi ser Juiz. E fi-lo porque, de todas as profissões forenses, me pareceu – tinha eu então 23 anos de idade e estava no 4.º ano da Faculdade de Direito de Lisboa – a que assumia maior dignidade e responsabilidade. Era também a que melhor se coadunava com a minha personalidade, então como hoje, pouco dada a obediências. Ainda é. Exerci a minha profissão todos estes anos – tomei posse como auditor de justiça no CEJ em 28 de Setembro de 1981 e como juiz de direito em regime de estágio em 29 de Setembro de 1982, esta no Tribunal Judicial de Cascais – com satisfação do dever cumprido e muitas vezes até com alegria. Actualmente faço-o com um profundo constrangimento. Sinceramente, não me sinto bem e algumas vezes até tenho vergonha. Por exemplo, é esse o sentimento que sinto perante as posições que recentemente têm sido assumidas pela Associação Sindical dos Juízes Portugueses e particularmente a resposta dada às declarações do Bastonário Marinho Pinto a propósito da eleição dos Juízes. O Bastonário Marinho Pinto é um populista que usa com alguma frequência a arma da demagogia – e esse é, em primeira linha, um problema dos Advogados (saber se gostam ou não que o seu representante máximo e rosto visível tenha esse perfil.) Só que a resposta da Associação Sindical apenas reforça as possibilidades de sucesso dessa estratégia do actual Bastonário, dando dos Juízes, em geral, uma péssima imagem – e isso já é um problema meu (a experiência da Associação de Juízes pela Cidadania não está a desenvolver-se como eu gostaria e, de facto, a Associação Sindical é, juntamente com o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, o rosto da Judicatura). Vamos por partes. O actual Bastonário sabe bem que em nenhum país europeu (os da União Europeia e os outros)os Juízes são eleitos. Aliás, em Portugal, os homens bons dos concelhos foram rapidamente substituídos e sem qualquer resistência das populações, pelos Juízes do Rei (isto apesar da lentidão dos processos que decorriam perante estes julgadores). Por outro lado, nos Estados Unidos – grande paradigma, mas só às vezes, do Dr. Marinho e Pinto -, os únicos Juízes que são eleitos são os dos condados (counties) e mesmo esses apenas em alguns dos Estados da Costa Leste, concretamente os que foram colónias britânicas. E, repito, nem sequer em todas essas ex-colónias, porque a regra geral é a de os Juízes estaduais serem, a todos os níveis, nomeados pelo Governador do respectivo Estado. E os Juízes federais (os do Supremo Tribunal Federal e os dos Federal Circuit Courts) são nomeados pelo Presidente da República, estando apenas sujeitos a um obrigatório processo de confirmação pelo Senado. Ora, em vez de desmontar a demagogia, a Associação Sindical parte para o insulto pessoal gratuito, fazendo o actual Bastonário passar de agressor a vítima. E, o que me enche de arrepios, ao manter o nome Sindical, torna ainda mais frágil a situação os Juízes perante a Comunidade Nacional.E como se isso não fosse já suficiente mau, o Presidente da Direcção da ASJP, numa entrevista a um jornal diário, associa Tribunais a fábricas. Fábricas, repito. Para além dos actos, também as palavras qualificam as pessoas. E clarificam quer as ideias que elas têm, quer a maneira como se vêem a si próprias. A razão apresentada para “justificar” a manutenção do termo “sindical” é, muito simplesmente, esta: assim a ASJP tem obrigatoriamente que ser ouvida pelo Parlamento e pelo Governo quando estão em causa diplomas legislativos que respeitem ao sistema judiciário.Esquecem os defensores dessa opinião que há uma diferença abissal entre falar e ser ouvido, entre cumprir um ritual formal e ter realmente influência na escolha das soluções que vão passar a constituir a Lei do país. Mas, como disse Gedeão, eles não sabem nem sonham.»
EURICO REIS | O PRIMEIRO DE JANEIRO | 02.06.2008
NB: Pode ler o artigo também na revista digital "IN VERBIS" em
1 - “...concerteza saberá sintonizar o que sentimos...”
Perfeitamente.
Devia-se ter vergonha da prepotência que sempre pairou (e ainda paira) nos registros, no notariado (agora privatizado) e nos Tribunais. Sejam Conservadores, Notários (os novos negociantes da Justiça), Magistrados e respectivos oficiais ou colaboradores, a grande maioria sempre ‘reinou’ com uma auréola do quero posso e mando...
Também todos os outros FP’s, principalmente dos serviços de finanças...
Estão aí as consequências...
Qualquer dia nem o pequeno-almoço das 10 da manhã podem ir tomar (?)...
2 - Sou oficial dos Registo e do Notariado, tomo o pequeno almoço em casa e bebo café antes de entrar ao serviço isto é antes das 9.00 horas, na minha hora, almoço na minha hora, das 12,00 ás 13,00, e saio a maior parte dos dias muito para além das 17,00, só para que saiba que não tenho medo de ficar sem o pequeno almoço das 10,00, nem é disso que se trata apesar do esforço de muitos para assim o dar a entender.
C.S. (Comentar)
Escrito por:
Anónimo
em 2008/06/09 - 22:30:42
3 - Acho que deveria ter mais cuidado com o que afirma, nomeadamente quando o faz com a cara tapada. Se não sabe, fique sabendo que na nossa Administração Pública há muitos e bons profissionais. Há muita gente séria e responsável, aliás sempre houve. Mas também sei, nós sabemos que há desmados, sempre houve, por essa administração pública, mas também sei que esses desvios também existem em altos cargos da administração, tal como, por vezes, é denunciado pela comunicação social. Concerteza que o senhor também sabe tudo isto ... e até deve saber muito mais, porque revela ser pessoa conhecedora de todos estes desmandos.
Mas sabe, continuo como sempre, de cara lavada e cabeça erguida.
E ficamos por aqui ... sabe porquê? tenho que assinar o que escrevo! ... (Comentar)
5 - Fazer pausas amiúde está provado que favorece quem as faz p´la simples razão de quebrar uma rotina que é "quebradora" de ritmo e raciocínio.
Há quem as faça para respirar um pouco, outros para tomar um café ou pequeno almoço, outros para fumar ( e neste caso há muita tolerância), outros ainda para esticar as pernas e fazer uns alongamentos. Há empresas que pagam a grupos de massagistas ao domicílio, que se deslocam aos locais de trabalho para aplicar umas massagens em cadeiras especiais, apenas por 10 minutos.
Em países civilizados, é tido como salutar que um Ser Humano faça uma pequena pausa para relaxar e retomar depois de alguns minutos um trabalho já por si aborrecido, rotineiro, exaustivo e que em nada dá saúde a quem o faz.
As máquinas, essas sim são programáveis e mesmo assim por vezes falham e com elas nem vale a pena reclamar ou gritar. . .com elas não há que pedir o livro de reclamações, (o tal amarelo).
A tirania de quem é patrão, passa pela ideia de que as pessoas devem ser serviçais, lacaios ou algo do género.
Onde fica a humanidade e a tolerância. Que raiva está instalada na cabeça de tantas pessoas ! é admirável a forma como a assumem . . .à raiva.
Por estas e por outras é que pessoas dedicadas e capacitadas para o trabalho, cada vez mais, preferem afastar-se dele e dedicar-se a uma vida de retiro, sem salário e fazer exercícios domésticos para fazer chegar o dinheiro para as despesas correntes, a ter de suportar o mau humor, a raiva e a tirania que se instalou nas pessoas, quer sejam utentes, superiores hierárquicos, observadores "espiões" ou o "raio que os parta". . .desculpem esta expressão muito portuguesa, mas é a que melhor me ocorre. (Comentar)
Perfeitamente.
Devia-se ter vergonha da prepotência que sempre pairou (e ainda paira) nos registros, no notariado (agora privatizado) e nos Tribunais. Sejam Conservadores, Notários (os novos negociantes da Justiça), Magistrados e respectivos oficiais ou colaboradores, a grande maioria sempre ‘reinou’ com uma auréola do quero posso e mando...
Também todos os outros FP’s, principalmente dos serviços de finanças...
Estão aí as consequências...
Qualquer dia nem o pequeno-almoço das 10 da manhã podem ir tomar (?)...
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C.S. (Comentar)
Mas sabe, continuo como sempre, de cara lavada e cabeça erguida.
E ficamos por aqui ... sabe porquê? tenho que assinar o que escrevo! ... (Comentar)
Há quem as faça para respirar um pouco, outros para tomar um café ou pequeno almoço, outros para fumar ( e neste caso há muita tolerância), outros ainda para esticar as pernas e fazer uns alongamentos. Há empresas que pagam a grupos de massagistas ao domicílio, que se deslocam aos locais de trabalho para aplicar umas massagens em cadeiras especiais, apenas por 10 minutos.
Em países civilizados, é tido como salutar que um Ser Humano faça uma pequena pausa para relaxar e retomar depois de alguns minutos um trabalho já por si aborrecido, rotineiro, exaustivo e que em nada dá saúde a quem o faz.
As máquinas, essas sim são programáveis e mesmo assim por vezes falham e com elas nem vale a pena reclamar ou gritar. . .com elas não há que pedir o livro de reclamações, (o tal amarelo).
A tirania de quem é patrão, passa pela ideia de que as pessoas devem ser serviçais, lacaios ou algo do género.
Onde fica a humanidade e a tolerância. Que raiva está instalada na cabeça de tantas pessoas ! é admirável a forma como a assumem . . .à raiva.
Por estas e por outras é que pessoas dedicadas e capacitadas para o trabalho, cada vez mais, preferem afastar-se dele e dedicar-se a uma vida de retiro, sem salário e fazer exercícios domésticos para fazer chegar o dinheiro para as despesas correntes, a ter de suportar o mau humor, a raiva e a tirania que se instalou nas pessoas, quer sejam utentes, superiores hierárquicos, observadores "espiões" ou o "raio que os parta". . .desculpem esta expressão muito portuguesa, mas é a que melhor me ocorre. (Comentar)