2008/06/18

USUCAPIÃO OU "USUCAMPIÃO"! ...


Diário dos Açores - São Miguel,Açores,Portugal
Um indivíduo do Pico da Pedra conseguiu colocar o terreno para o seu nome no
Cartório Notarial da Povoação e até já o vendeu a um genro. O caso não é único.
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Destaque
Nélia Câmara
12/06/2008 09:06:
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                      HOMEM PASSA PARA SEU NOME TERRENOS NOS FENAIS DA LUZ QUE NUNCA COMPROU  
   
 
               Maria   de Fátima  Paz nunca  vendeu  o  prédio  que tem nos Fenais da Luz, mas certo
é  que  ficou  sem  ele. Um indivíduo do  Pico da Pedra  conseguiu colocar  o  terreno para o seu
nome  no  Cartório  Notarial  da Povoação e até já o vendeu a um genro. O caso  não é único. Há
mais quatro pessoas na mesma situação. 
           Cinco prédios no Biscoito Branco, freguesia dos Fenais  da Luz - junto ao campo de Golfe
da   Batalha -,   sem   que   os   donos  soubessem,   foram  passados  para  o   nome  do   mesmo
indivíduo, residente no Pico da Pedra, através de Escritura de Justificação, por usucapião,  feita
pelo Cartório Notarial da Povoação. A justificação dada, e publicada em anúncio de jornal, é que
 a compra de todos os prédios  confinantes fora  feita verbalmente  nas décadas de 1960, 70 e 80,
 e   que   por os donos por terem falecido,  e  os  filhos   emigrado,   não  fora  possível "adquirir
 as  procurações   devidas  para  que  possam   legalizar  a  venda". Mas a
verdade é que os donos
 dos   prédios  não   morreram,  nem  os filhos  emigraram,  como é   o  caso de Maria  de Fátima
 Vasconcelos  Paz,  que   está   bem   viva,  e   é uma  das ´vítimas´ da Escritura de  Justificação
 que  considera  "fraudulenta", bem   como  o teo r da mesma "falso", porque os dados  constantes
 na  mesma  "não   correspondem   minimamente  à   verdade".  Agora   o   processo  foi entregue
 a   um   advogado  que  pede ao   Tribunal que anule a "escritura fraudulenta" e que "seja reposta
a verdade e feita justiça para que as pessoas possam reaver os seus prédios, que nunca venderam
 a ninguém".
            Segundo  Maria  de  Fátima Paz, para além de estar viva como o DA pode atestar, à data
da  preparação  da  escritura  o seu marido também era vivo - faleceu a 8 de Dezembro de 2007 -
e "nunca  fomos  contactados  por ninguém, nem o meu marido vendeu   o   prédio, verbalmente,
em 1980, porque  também a  irmã é proprietária do mesmo, logo o prédio não podia ser vendido
sem o consentimento dela,  uma vez que fora uma herança, que estava no nome dos dois. O filho
da minha cunhada - Luís António  Macedo  Paz  Botelho Mota - é o procurador da mãe  e  controla
todos os prédios e nunca se apercebeu que  houvesse   alguém   desconhecido no prédio.  O  meu
marido não podia vender  o que  era seu e nunca faria isso." A atestar que não venderam o prédio
na data que a escritura de justificação diz - 1980 -, "e muito menos verbalmente", está a escritura
que fizeram do mesmo no  Registo  Predial  em  1983,  "averbad no meu nome, do meu marido e
da   minha   cunhada".   Aliás,   garante   que  "todos  os  anos    pagamos  a  contribuição predial,
como   aconteceu   em   2007,   com  o   registo   do   prédio   no    artigo  34  - secção   F.  Para
qualquer  trabalhador,  proprietário esclarecido,  como eu, sabe que esta secção foi transformada
e é com esse registo que pagamos a contribuição".
                  Na   Escritura   de  Justificação consta  ainda   que  o marido de Maria de Fátima Paz,
António  Rodrigues  Macedo Paz,  era casado com Maria Angelina Barbosa, o  que não corresponde
 à verdade.  Mas  a  mesma  senhora  "incrivelmente"  em  outras duas escrituras de justificação é
casada  com   dois   outros   vendedores  de terrenos  que, segundo  o comprador, também foram
vendidos verbalmente, conforme está escrito nas   escrituras  de  justificação. "Ninguém é casado
na mesma data com três pessoas diferentes.  Isso  é  um  absurdo",  desabafa... Falso  é  também,
diz   Maria   de  Fátima  Paz, "que o meu marido tenha  vivido nos  Fenais da  Luz como  está   na
Escritura de Justificação. Temos prédios  nos  Fenais  da  Luz,  mas  nunca   lá residimos,  nem  lá
temos   casa  de  Verão. Desde que casamos vivemos sempre em Ponta Delgada. Antes de casar o
meu marido vivia na Lagoa. Não percebo como é que este comprador   comprou  um  prédio que
não vendemos e diz que morremos. Ainda  há  pouco  tempo  um    vizinho, que está  a  construir
uma casa, colocou o muro que divide os terrenos no chão e disse-nos que não nos preocupássemos
que  ia  recuperar. Ele    sabia  que   éramos  os proprietários,   não   sei como    esse  senhor não
nos encontrou".
                 Quanto   ao   facto  de  os  filhos terem emigrado, Maria de Fátima Paz diz que "é um
absurdo. Os meus filhos sempre   residiram   cá e  até  estudaram  na  Universidad dos Açores. Só
uma  filha é que esteve  cinco  ano  s em Lisboa, período  em  que   esteve a tirar  o  seu   curso,
mas   regressou   e   trabalha   cá".  Com  tudo   dentro da legalidade que prova que,   tanto   ela
como   o   marido,  já  falecido, tinham  oprédio legalmente inscrito, Maria de Fátima Paz diz ser
"muito   estranho   e  difícil  compreender  como  é que o Registo Predial de Ponta Delgada passa
uma nova certidão a dizer que o prédio  é  omisso. Tenho  a  escritura, a caderneta predial (uma
de 1983  e  outra de 1986, resultado de uma nova avaliação do prédio), o recibo da contribuição,
em conjunto com outros prédios.
               Mais estranho   ainda,   considera, "é que  as cinco escrituras  referem a  venda pelo
mesmo motivo e na mesma data:  o comprador deu o   dinheiro  a   todos  e  os que venderam
já morreram todos (estão todos vivos), todos os filhos estão emigrados em parte incerta (e não
é verdade),   que a  Maria   Angelina   Barbosa   era   mulher  de  três pessoas,  e  que todas as
escrituras tenham sido feitas no Cartório Notarial da Povoação".
        Para além disso, a entrevistada coloca em dúvida a testemunhas  que  dizem ter  assistido
à venda verbal, principalmente uma, de nacionalidade brasileira, por suspeitar que "esta pessoa
à data da compra nem estava em Portugal".
Indignada, Maria de Fátima Paz diz que "ninguém pode estar descansado  com a facilidade  com
que nos   roubam os bens", sublinhando que quando apareceram  os    notário s  privados   "tinha
dúvidas,mas com este caso, com os notários do sistema-também não podemos descansar".Como
se isso não bastasse, Maria de Fátima Paz foi "desagradavelmente surpreendida"  quando  foi dar
os bens a rol e não pode dar o seu prédio, que já fora vendido pelo comprador a um genro...


 

Escrito por J.C.Pacheco Alves em 23:23:38 | Link permanente | Comments (6) |
Comentário
1 - Apenas para referir que o Cartório Notarial da Povoação - Açores é, ainda, público. Não está a cargo de nenhum notário privado.
Cumprimentos, Patrícia Barata (Comentar)

Escrito por: Anónimo em 2008/06/19 - 09:43:09
2 - , Acha que perante estes factos, faz diferença se o Cartório é Público ou Privado?

Os Notários (quer sejam Públicos ou quer sejam Privados)são profissionais munidos de Fé Pública, ou não?
Não faz sentido trazer à colação essa questão de se tratar de um Cartório Público ou de um Cartório Privado. Salvo, por uma visão economicista.


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Escrito por: Anónimo em 2008/06/19 - 23:32:50
3 - Sempre defendi (e continuo a defender) que as escrituras de justificação, qualquer que seja a sua finalidade, sobretudo se para primeira inscrição, em que os interessados invoquem a usucapião (no Alentejo a gente rude e boa daquela região chamava-lhe e continua a chamar-lhe "usucampião) como causa de aquisição, deviam ser eliminadas; quem precisasse de título para o registo e dele não dispusesse devia obtê-lo, exclusivamente, através da via judicial. E isto pela razão simples de que o notário perante a validade formal dos documentos apresentados e a declaração dos interessados e dos 3 declarantes (ainda ...) exigidos por lei, não tem como recusar o acto. Se o fizer e for accionado pelo interessado para o indemnizar pelo prejuízo que a recusa lhe causou, se esta for considerada injustificada, o tabelião terá mesmo de esportular uns tostões(desculpem, uns cêntimos ... nas tostões era mais giro, lá isso era!)
Aliás, o legislador teve consciência da fragilidade do controlo notarial, razão por que manda que os interessados e declarantes sejam advertidos de que se prestarem falsas declarações, dolosamente e em prejuízo de outrem, podem incorrer no crime de falsas declarações; formalidade que só encontra paralelo, por razões óbvias, nas escrituras de habilitação (de herdeiros ou legatários) em que somente intervenha o cabeça-de-casal.
A chatice é que quando há tramóia (e há muita) e esta é descoberta, aqui D'El-Rei que o notário fez e aconteceu, com ele para a fogueira ...
Não digo - neste mundo e neste país tudo é cada vez mais posível - que não possa haver um notário que, sabedor da falsidade das declarações, pactue com a vigarice ou, pelo menos, faça vista grossa. Mas devo dizer que em quase 40 anos de vida profissional nunca tive conhecimento de que algum notário tivesse sido demandado civil ou criminalmente por esse tipo de comportamento. Quer dizer alguma coisa, não quer?
Grave. grave, são os facilitismos que vêm em "pacotes" e que mandam a segurança jurídica às urtigas. E todos ou quase todos se calam, assobiando para o lado.
Há pouco, aquando da apresentação de mais um desses pacotes, interpelado creio que por deputados da bancada do PCP sobre onde ficava a segurança jurídica, o governante (já não recordo se o sisudo e arrastasdo ministro da Justiça que - na opinião de um estimado Colega, "parece um automóvel que só anda em primeira velocidade", ou se o o seu secretário de Estado que, ao invés, anda sempre em 6ª velocidade) encarregado da tarefa, dizia com toda a seriedade e grande convicção "que o governo garantia ...)
Mas se alguém for ludibriado por um vigarista que saiba utilizar os facilitismos que têm sido dados à estampa no Diário da República para mais facilmente dar o golpe, o que é que o governo garante?!
Que o infeliz não vai ter que recorrer aos tribunais para obter a reparação a que tem direito?
Que, ao fazê-lo, não vai ser confrontado com a imprevisibilidade que caracteriza as decisões dos nossos tribunais, de tal ordem elevada que é considerada, a nível mundial e por instituições insuspeitas e respeitáveis, como uma das causas principais do fraco investimento estrangeiro em Portugal?
Que o dito infeliz não vai ter que aguardar durante décadas (disse bem, décadas) por uma decisão final?
Que não lhe vão arrancar o couro e o cabelo -mesmo que obtenha ganho de causa- com taxas de justiça e custas?
Como também se dizia (e diz) no Alentejo: "tá bê dêxa"
Um abraço, Pacheco Alves, do
Cícero
PS: Declaração de interesses: Não sou notário, nem conservador, nem funcionário público, tendo, porém, muito respeito por todos eles, como, aliás, por todos os trabalhadores (eu sei que não está na moda ter posições destas ou utilizar aquele último termo, agora é mais colaboradores, mas estou pouco me lixando para o léxico dos liberais ou neoliberais, sobretudo dos oriundos da tralha maoísta (e não só) que, sem surpresa, se bandearam com o Tio Sam, quando foi chegada a hora de receberem a gorgeta)

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Escrito por: Anónimo em 2008/06/20 - 01:03:38
4 - Certo é e será que os tribunais mais cedo ou mais tarde vão entupir, tanto devido á desformalização e simplificação no Registo Comercial como num futuro próximo e que tanto já se tem falado por aqui, a simplificação e desformalização no Registo Predial, vai ser tudo tão simples que qualquer dia para comprar basta desejar, se quer vender ou não, não vai mesmo importar o vendedor nem vai ser precisar estar presente... (Comentar)

Escrito por: Anónimo em 2008/06/20 - 22:04:47
5 - Bom.
Basta relembrar um dos 'casos' Vale e Azevedo.
Quem colaborou?
Estava ou não munido de Fé Pública?
E nessa altura ainda não havia esta coisa do Simplex e muito menos os Advogados com as suas competências 'alargadas' ao nível de certos actos próprios dos Notários, como a autenticação de documentos ou o reconhecimento (não) presencial de assinaturas...
Tirem as devidas conclusões...

P.S. - Caro Pacheco Alves, parece-me que a configuração do blog em termos de 'vistas' não está de boa saúde, visto que ao ler-mos os textos - posts - parte destes não está 'visivel'. É necessário dar ou tirar Zoom por forma a conseguir-mos ver o todo. Talvez um pequeno toque informático e o blog ficava mais ágil.

Um bom fim-de-semana para todos
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Escrito por: Anónimo em 2008/06/21 - 00:45:54
6 - Sim. Há já algum tempo que também me parece que algo não estará be.m. Tudo leva a querer que é um problema de configuração. Vou tentar resolver
o problema na segunda ou terça feira ! ... (Comentar)

Escrito por: J.C.Pacheco Alves em 2008/06/21 - 12:30:38
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