2008/06/28

«TRIBUNAIS A ARDER»

Tribunais a arder?

“Ó senhor ministro da Justiça, o senhor está a dormir. Acorde, por favor. O País pode cair de ridículo”

     Toda a gente sabe que esta semana dois juízes foram agredidos em pleno tribunal, no  momento da leitura da  sentença,
pelos arguidos de um processo de tráfico de droga.

Toda a gente sabe que o tribunal funcionava provisoriamente no quartel dos Bombeiros Voluntários  de Vila da  Feira porque
o edifício do tribunal estava prestes a ruir.

O que é espantoso é que ninguém saiba que juízes agredidos em tribunal pelos arguidos que estão a ser julgados significa o
fim da linha.

     É um retrato  pavoroso do sistema judicial e a prova indisfarçável de que a Justiça bateu no fundo.

     Não  adianta  pintar  com  cores brandas   o    que aconteceu. É um epifenómeno,   a ponta   do icebergue, mas que mostra
à sociedade um cortejo de enormidades que assustam o mais comedido cidadão.

      Se  um   juiz  é espancado nos   tribunais, o que é que falta acontecer? Nada. Os tribunais são órgãos  de  soberania. Que
dignidade existe se funcionam no quartel dos Bombeiros Voluntários? Por puro pragmatismo,   alguém decidiu que um tribunal
não precisa de lugar próprio para funcionar e   de   outras formalidades  e   rituais que historicamente legitimam  o exercício da
Justiça.   Ou   seja,   um   tribunal   pode    então funcionar num café,numa mercearia, numa agência funerária, numa discoteca,
num mercado  ou  no  quartel  dos  bombeiros.  Entre um  e  outro fogo,  por entre  as sirenes estridentes  dos  bombeiros,  os
juízes despacham processos, lêem sentenças, ouvem testemunhas. Eu sei lá!

      Isto    dava   um   grande   filme.  Estou  mesmo  a  ver. Os juízes com os capacetes dos bombeiros para aguentarem bem
qualquer paulada. Os advogados    das   partes   enroscados  nas mangueiras de água, as testemunhas sentadas nos carros
que apagam os fogos e os réus no cimo das escadas magirus à espera da sorte que lhes coube. Precisamos de Fellini para
este filme trágico-cómico.

       Ó senhor ministro da Justiça, o senhor está a dormir. Acorde, por favor. O País pode cair de ridículo. Faça qualquer coisa.

Sem Justiça o País não funciona, as empresas estrangeiras não se instalam. A economia não floresce. Sem Justiça célere,
sem juízes preparados para o acto nobre de julgar, sem instalações dignas, a Justiça esfuma-se.

        Faça qualquer coisa, senhor ministro.
        Emídio Rangel, Jornalista

Escrito por J.C.Pacheco Alves em 12:44:25 | Link permanente | Comments (0) |
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