Noticia o jornal Expresso de 19 de Novembro que a corrida às reformas na Função Pública pode vir a comprometer o funcionamento de alguns serviços importantes da administração do Estado. Esta sangria, no entanto, não se verifica apenas nos serviços da da Segurança Social e do Fisco como é referido, pois abrange todos os serviços da nossa administração.
Já em artigo de opinião de 28 de Dezembro de 2002, publicitado neste blog e na página da Associação Sindical dos Conservadores dos Registos, alertávamos para as consequências desta debandada em muitos serviços e organismos do Estado, nomeadamente também no sector da Justiça. Diziamos nós que " em variadíssimas áreas da administração pública, (...)há muito tempo que profissionais dedicados e briosos, quadros extremamente qualificados, com evidentes provas dadas ao longo da suas vidas profissionais, e que emplena posse das suas capacidades fisícas e intelectuais, "abandonam" os serviços ou cargos para o qual tinham sido nomeados. Isto para não falarmos já da marginalização por determinação consciente dos poderes políticos, ou mesmo auto - marginalização de alguns destes profissionais, que poderiam e deveriam continuar a dar a sua coloboração em vastos sectores importantes da administração pública, e que foram ou são "arrumados na prateleira" por não acreditarem em absoluto nos caminhos dito modernos, apelativos de um modo de ser fundamentalista, ou mesmo por denotarem ao longo das suas carreiras profissionais uma atitude ou comportamento de forte isenção ou indepêndência face aos poderes instituidos ..." .
Só agora é que as próprias associações sindicais admitem que tal sangria vai trazer problemas ao funcionamento da Administração Pública, admitindo que esta debandada é o resultado da desconfiança, da preocupação e da saturação que se vive no seu seio.
Vão-se embora muitos, dizemos nós, porque, provavelmente, não se acredita no presente nem mesmo no futuro da nossa administração. E Portugal não ganha nada com algumas destas aposentações, muitas delas até precoces, já que é a própria inteligência nacional, consciência crítica que potencia a mudança, que parece estar em debandada. Sabemos que muitos destes quadros pela capacidade, conhecimentos e inteligência eram importantes para potenciar as reformas que há muito se exigem. Portugal não deveria dar-se ao luxo de deitar fora o melhor da nossa inteligência nacional, pelo que era absolutamente essencial estancar a desmotivação reinante ou a desacreditação que se vive no seio de toda a Administração Pública.
Vemos e vivemos tudo isto com grande preocupação e mesmo ângustia. Numa altura em que era importante recrear novos caminhos, que dessem um novo ânimo aos serviços da nossa administração, o contributo de muitos destes profissionais era de fundamental importância para que as mudanças não se fizessem com rupturas. Infelizmente constatamos que o sonho, sem dúvida legítimo, de muitos de nós, que deveria ser antes de mais o de fazer crescer e mudar o país, é agora não o de reformar, mas o de se reformarem. Afinal, quem é que acredita no País? ...
Setúbal, 30 de Maio de 2006
José Carlos Pacheco Alves